Redação Culturize-se
Nos últimos anos, o mantra de Hollywood era sobreviver até 2025, confiando na ideia de que, eventualmente, o público voltaria em massa às salas, restaurando o ritmo pré-Covid da indústria. No entanto, com o verão americano de 2025 encerrando-se com apenas US$ 3,67 bilhões em bilheteria na América do Norte — quase igual ao ano passado e muito abaixo dos US$ 4,09 bilhões alcançados em 2023 — essas esperanças parecem frágeis. O resultado da temporada reflete tanto mudanças estruturais nos hábitos globais de consumo de cinema quanto os próprios erros de cálculo de Hollywood.
A grande questão não é apenas o público não ter aderido aos blockbusters da temporada. É que todo o ecossistema do cinema mudou. Antes, uma bilheteria internacional sólida poderia compensar o desempenho fraco nos EUA, mas mercados como China, Coreia do Sul e América Latina esfriaram. Franquias outrora confiáveis, como “Missão: Impossível” e “Jurassic World”, renderam números sólidos, mas bem abaixo dos patamares pré-pandemia. O novo “Superman”, por exemplo, arrecadou apenas 43% de sua bilheteria no exterior, distante dos 57% conquistados por “O Homem de Aço”. Em países como Vietnã, onde os filmes de Hollywood já dominaram metade do mercado, hoje respondem por apenas 14%.

Mas a crise não se resume à queda do apetite internacional. Trata-se também de expectativas. A firma de análise Gower Street previa um verão otimista de US$ 4,2 bilhões, o que aumentou a decepção quando a arrecadação ficou estável. Ainda assim, o discurso de declínio generalizado ignora nuances: a temporada não desmoronou — ela estagnou. A frequência aumentou em um milhão de ingressos em relação ao ano anterior, mais filmes ultrapassaram a marca dos US$ 100 milhões domésticos e o sucesso foi mais distribuído, sem se concentrar apenas em mega-hits.
As surpresas provaram isso. “Lilo & Stitch”, remake live-action inicialmente visto como derivativo, tornou-se o único título global a ultrapassar US$ 1 bilhão. A Warner Bros. emplacou sucessos inesperados com originais como “A Hora do Mal” e “F1: O Filme”, da Apple, que conseguiu superar “Superman” no fim da temporada. O terror também mostrou vigor, com “Premonição: Laços de Sangue” tornando-se o capítulo de maior bilheteria da franquia. Ou seja, apesar do pessimismo, vitórias indicam que o cinema não morreu — apenas está em transformação.
Ainda assim, a ansiedade é real. O público talvez já não seja suficiente para sustentar tantos lançamentos de grande orçamento. O streaming absorveu os espectadores ocasionais, especialmente para filmes médios, e pesquisas apontam para a preferência crescente de assistir em casa.
O clamor de Reese Witherspoon
Nos últimos dias, Reese Witherspoon chamou atenção ao afirmar que Hollywood precisa passar por uma mudança radical para sobreviver. Segundo a atriz e produtora, não faz sentido esperar que o público volte a frequentar o cinema como antes da pandemia: a cultura de consumo mudou, especialmente entre os mais jovens, que dividem a atenção entre várias telas, se relacionam com narrativas de outras formas e, muitas vezes, preferem assistir a filmes em casa. Para Witherspoon, insistir em uma lógica ultrapassada é perder tempo; o desafio da indústria está em se adaptar rapidamente aos novos hábitos, testando formatos e linguagens capazes de alcançar onde o público de fato está.
Witherspoon ecoa um consenso crescente. É preciso inovar. A diferença está na urgência de sua fala. Enquanto muitos empresários falam em transições graduais, a atriz defende que a mudança será radical e inevitável em poucos anos. Esse senso de urgência se aproxima da percepção de que a experiência coletiva do cinema só sobreviverá se for transformada em evento, algo já defendido por Steven Spielberg.
Essa tensão fica evidente a partir da constatação de que o maior fenômeno de público da temporada surgiu na Netflix. Neste verão, a plataforma surpreendeu ao transformar “KPop Demon Hunters” em seu filme original mais assistido de todos os tempos, superando “Alerta Vermelho”, que custou o dobro e tinha astros globais. Seu caminho para o sucesso foi atípico: estreou modestamente, manteve-se no top 10 e, aos poucos, virou fenômeno cultural, sem merchandising ou grandes campanhas. O caso ilustra a dura realidade de Hollywood: por mais que acumule dados de público, “ninguém sabe de nada”.
O triunfo também levanta questões estratégicas. A Sony, que produziu o filme antes de vendê-lo para a Netflix, pode se arrepender de não tê-lo mantido. Seu contrato de licenciamento com a plataforma está para expirar, e rivais como Amazon e HBO estão de olho. Mas a lição vai além dos direitos: trata-se de filosofia de distribuição. A Netflix redefine o conceito de sucesso, vivendo da imprevisibilidade e da escala, ao contrário dos cinemas, que dependem da previsibilidade das grandes estreias.
Esse contraste expõe um paradoxo: os cinemas precisam de certezas, enquanto o streaming vence na incerteza. Mas decretar a morte das salas seria precipitado. Pesquisas apontam que a Geração Alpha (crianças até 12 anos) pode ser a chave da retomada. Um estudo recente da NRG mostrou que 59% desse grupo prefere assistir a filmes nos cinemas, o maior índice entre todas as faixas etárias. O entusiasmo lembra fenômenos virais como “Barbie” e “Wicked”, em que fantasia, cosplay e cultura de memes transformaram sessões em eventos.
O verão também revelou apetite por diversidade e nostalgia. Releituras com protagonistas femininas, como “Lilo & Stitch” e “Como Treinar o Seu Dragão”. A A24, símbolo da ousadia autoral, cresceu 160% em relação ao ano passado, com títulos que variaram de “Eddington”, faroeste anárquico de Ari Aster, à comédia romântica “Amores Materialistas”, com Dakota Johnson. No meio do mar de super-heróis, ficou claro que ainda há espaço para originalidade.

Se algo ficou evidente, é a esquizofrenia de Hollywood: de um lado, grandes estúdios insistem em franquias dispendiosas; de outro, reconhecem a demanda por novas vozes e formatos. Enquanto a Warner Bros. celebra bilheterias bilionárias, a Sony tropeça com reboots. A Netflix lança um fenômeno improvável, enquanto players tradicionais lamentam perdas de US$ 7 milhões em relação ao ano anterior.
O copo está meio cheio ou meio vazio? Para pessimistas, a estagnação marca o fim de uma era em que verões de US$ 4 bilhões eram rotina. Para otimistas, a diversificação do sucesso e a formação de novos públicos revelam resiliência. O certo é que Hollywood precisa recalibrar expectativas. A era dos acertos garantidos acabou; o novo mantra pode ser: adaptar-se ou desaparecer.
No fim, o verão de 2025 será lembrado menos pelos números e mais pelas lições. O streaming deixou de ser coadjuvante e tornou-se central. O mercado estrangeiro já não salva fracassos internos. A nostalgia ainda vende, mas a originalidade também pode florescer. E, sobretudo, a nova geração mostra desejo pelas salas — desde que Hollywood aprenda a falar sua língua. O futuro do cinema não será um retorno ao passado, mas algo novo, forjado na trégua instável entre a imprevisibilidade do streaming e a promessa duradoura da experiência coletiva da tela grande.