Redação Culturize-se
A experiência do deslocamento é uma espécie de fio condutor na trajetória da artista visual cubana Ivonne Ferrer. Nascida em Havana, em 1968, Ferrer construiu uma produção que atravessa diferentes linguagens e materiais para investigar relações entre corpo, espaço, memória, identidade e território. Em sua obra, a cartografia ultrapassa a representação geográfica e se transforma em instrumento para compreender os lugares — físicos e simbólicos — que constituem a experiência humana.
Essa pesquisa esteve no centro de sua participação em “Entre Lugares – Práticas contemporâneas entre Brasil, Cuba e Porto Rico”, mostra encerrada neste mês, no Instituto Cervantes de São Paulo. Ao lado de Gerson Fogaça, Alexis Iglesias, J. Pavel Herrera e Bernardo Medina, Ferrer apresentou trabalhos da série “Cartografías del Ser”, aproximando sua produção do público brasileiro.
Para a artista, o encontro também ampliou as possibilidades de interpretação de uma obra originalmente construída a partir de experiências pessoais. “Minha experiência com o público brasileiro tem sido muito estimulante. Percebo um olhar curioso, aberto e sensível, com grande disposição para se aproximar das obras e estabelecer conexões com elas”, afirma.
Entre os trabalhos apresentados estava “Cartografia do Entrelugar”, instalação que parte de um tabuleiro de xadrez fotográfico. Retirada de sua função original, a estrutura do jogo converte-se em metáfora de território e da posição ocupada pelo indivíduo dentro dele. A geometria, as imagens fragmentadas e a organização modular articulam espaço, deslocamento e identidade.
“As imagens fragmentadas, a geometria e a estrutura do jogo aludem a essa condição de estar entre lugares, culturas, memórias e identidades”, explica Ferrer. O conceito também se relaciona diretamente à trajetória da artista, que viveu e produziu fora de Cuba durante muitos anos.
A mesma investigação assume uma dimensão mais íntima em “Cartografia do Jogo Interior”, conjunto de seis tapeçarias intervenidas com bordados e fragmentos de cerâmica. Fragmentos do corpo são incorporados ao tecido e conectados por fios aos bordados, criando uma configuração que remete aos sistemas nervoso e circulatório. Tecido, linha, cerâmica e costura deixam de ser apenas elementos materiais e passam a compor um mapa afetivo, no qual memória, vulnerabilidade, identidade e transformação se encontram.
“Embora sejam formalmente diferentes, ambas as propostas fazem parte de uma mesma investigação. Uma olha para o espaço que ocupamos entre diferentes territórios; a segunda se volta para esse território interior que carregamos conosco”, resume.

Geometria, arquitetura e experiência
A pesquisa de Ferrer terá continuidade em uma agenda internacional. Em setembro de 2026, ela apresentará “Geometrias Habitadas. Corpos, espaços e arquiteturas na obra de Ivonne Ferrer”, na Universidade Autônoma de Mérida, no México, como parte das comemorações do 53º aniversário da instituição. A exposição reunirá pinturas e instalações têxteis de diferentes momentos de sua trajetória e terá seleção do crítico e curador David Mateo, que acompanha a presença da geometria e da arquitetura em sua produção.
Também em Mérida, o Museum of Contemporary Art of the Americas (MoCAA) apresentará uma seleção de sua coleção de arte cubana no Museu da Cidade, estabelecendo uma ponte entre Miami, Cuba e México. Ferrer participará com uma instalação de sua série mais recente, “El Lenguaje del Silencio”.
No Brasil, a artista prepara uma exposição individual no Museu de Goiânia, prevista para novembro, seguida de uma participação em Britânia, no Vale do Araguaia, ligada à inauguração do Instituto Urukum. “O Brasil tornou-se um território de encontro não apenas expositivo, mas também humano e criativo”, diz.
Sua atuação ultrapassa a produção artística. Ferrer também participa de iniciativas de pesquisa, organização de exposições e intercâmbio institucional, incluindo um projeto editorial dedicado à trajetória do MoCAA e à história de sua coleção.
Nascida em Havana, formada pela Academia de Belas-Artes San Alejandro e pelo Taller Nacional de Serigrafía René Portocarrero, a artista viveu na Espanha e reside nos Estados Unidos desde 1995. Pintura, escultura, arte pública, cerâmica, serigrafia, colagem e instalações têxteis integram um repertório construído a partir da circulação entre diferentes geografias.
Nesse percurso, Cuba, Espanha, Estados Unidos, México e Brasil não são apenas pontos em um mapa. São territórios de experiência, memória e transformação. “Cada exposição é, para mim, uma nova possibilidade de reorganizar esse mapa”, afirma Ferrer. É justamente nessa cartografia em permanente construção que sua obra encontra sua questão central: como os lugares que habitamos, deixamos e recordamos continuam inscritos em nosso corpo — e como, a partir deles, construímos continuamente o lugar ao qual pertencemos.