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Guilherme Boulos radiografa crise da esquerda em livro que soa como clamor à militância

Por Reinaldo Glioche

O livro de Guilherme Boulos, “Pra Onde Vai a Esquerda?” (Editora Contracorrente), apresenta-se como objeto de interesse menos pela densidade teórica que pela sintomatologia política que expõe. Trata-se de uma obra assumidamente concisa, quase telegráfica, que o próprio autor justifica como adequação ao ritmo fragmentado da contemporaneidade digital; um reconhecimento melancólico de que até o pensamento crítico precisa se curvar à tirania dos “stories de 15 segundos”.

A escolha formal não é gratuita. Ao optar pela brevidade, Boulos opera uma curiosa contradição performativa. Enquanto diagnostica a dificuldade da esquerda em disputar o imaginário coletivo, sua própria escrita capitula diante dos mesmos mecanismos de atenção fragmentada que critica. O “grande esforço de síntese” de que fala o autor revela menos virtuosismo estilístico que resignação pragmática. Escreve-se fino não pela economia modernista de um Graciliano Ramos, mas pela consciência de que o leitor contemporâneo, atomizado e disperso, dificilmente suportará mais.

Essa tensão entre forma e conteúdo atravessa toda a obra. Boulos pretende pensar estrategicamente o futuro de um campo político, mas o faz em um formato que mimetiza a urgência publicitária das próprias redes sociais que identifica como território de disputa. O livro torna-se, assim, híbrido: nem tratado político nem panfleto de ocasião, habita um limbo entre a reflexão e o chamado à mobilização.

Confusão, apatia e algoritmos

O ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherm Boulos | Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

O núcleo argumentativo da obra repousa sobre um diagnóstico severo. A esquerda brasileira encontra-se em “estado de confusão e apatia”, mesmo quando exerce o poder. Boulos identifica uma inversão paradoxal – a capacidade de pautar debates e mobilizar massas migrou para o campo adversário, que soube não apenas ocupar as redes sociais, mas compreender sua gramática íntima.

A análise dos três pilares da hegemonia digital da extrema direita – compreensão algorítmica, unidade narrativa e ecossistema próprio – demonstra acuidade tática. Boulos reconhece, com franqueza quase brutal, que “quando atacávamos adversários e mostrávamos situações indignantes, o engajamento explodia”, admitindo que a lógica da indignação não é desvio moral, mas “inescapável” para quem deseja disputar as plataformas digitais.

Aqui reside uma das passagens mais perturbadoras do livro: a admissão de que a esquerda precisa adotar os mesmos mecanismos beligerantes que condena, não por convicção ética, mas por imperativo estratégico. É uma espécie de realismo cínico, temperado pela ressalva de que os algoritmos “não necessariamente refletem o conjunto complexo dos sentimentos na sociedade”. A ressalva, porém, soa como consolo insuficiente diante da rendição tática que propõe.

As encruzilhadas: centrismo, sectarismo e frente ampla

Boulos articula sua reflexão em torno de dois perigos simétricos. O centrismo (abandono de pautas progressistas) e o sectarismo (recusa de alianças táticas). A solução proposta – a frente ampla que elegeu Lula em 2022 – é apresentada como virtuosismo político, mas o autor reconhece, talvez inadvertidamente, suas contradições estruturais.

Ao descrever os três setores que “cercam” Lula, a Faria Lima, o Centrão e o bolsonarismo, Boulos expõe os limites de sua própria estratégia. A frente ampla, necessária para vencer eleitoralmente, torna-se camisa de força quando se trata de governar. O livro não resolve essa tensão; antes, a desloca para o futuro, como projeto a ser realizado.

A proposta de “disputar o centro sem virar de centro” funciona mais como tautologia retórica que solução prática. Como preservar identidade programática enquanto se negocia com forças que defendem exatamente o contrário? Como combater a “agiotagem financeira” e denunciar a “especulação” alimentar quando se governa em aliança com aqueles que personificam esses interesses? O livro silencia diante dessas aporias.

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Há algo de melancólico na evocação que Boulos faz da Teologia da Libertação e das comunidades eclesiais de base dos anos 1980. O autor reconhece que a direita “aprendeu esse método com a própria esquerda” e agora o emprega com eficácia superior. A constatação tem sabor amargo. A esquerda perdeu não apenas territórios geográficos, mas seu próprio repertório metodológico.

A proposta de reaproximação com evangélicos via políticas públicas e “valores cristãos” demonstra pragmatismo, mas também certa ingenuidade. Reduzir a adesão evangélica à extrema direita a uma questão de oferta programática ignora dimensões simbólicas e afetivas mais profundas. A teologia da prosperidade não triunfa apenas por déficit de políticas sociais, mas porque oferece narrativa de sentido em um mundo esvaziado de transcendência.

Entre a urgência e a superficialidade

A escrita de Boulos é funcional, direta, desprovida de ornamentos. Não há tempo para digressões, tampouco para a complexidade conceitual que o tema exigiria. Termos como “hegemonia”, “guerra cultural” e “frente ampla” circulam como moeda corrente, sem a devida espessura teórica. O livro assume-se como “chamado à ação e à militância”, não como contribuição ao pensamento político.

Essa escolha tem consequências. Ao privilegiar a comunicabilidade imediata sobre a profundidade analítica, Boulos produz texto que funciona mais como manifesto de intenções que como mapa conceitual robusto.

“Pra onde vai a esquerda?” importa menos pelas respostas que oferece – reconhecidamente provisórias e incompletas – que pelas contradições que expõe involuntariamente. É livro que diagnostica a crise de imaginação política da esquerda enquanto, ele mesmo, padece dessa mesma escassez imaginativa. Propõe disputar as redes sem questionar se essa disputa não implica colonização total pela lógica do espetáculo. Defende frente ampla sem equacionar suas consequências programáticas.

O que resta é um texto honesto em seus limites, consciente de sua precariedade, que funciona mais como fotografia de uma perplexidade histórica que como roteiro para sua superação. Boulos escreve do olho do furacão, sem a distância necessária para enxergar o horizonte. E talvez seja justamente essa urgência sem saída que faz do livro documento valioso; não pelo caminho que indica, mas pela errância que confessa.

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