Redação Culturize-se
A experiência de ir ao cinema passa por uma reconfiguração estrutural, impulsionada sobretudo pela ascensão da Geração Z como principal público das salas de exibição nos Estados Unidos. De acordo com o estudo “2026 Moviegoing Trends & Insights”, da Fandango, os jovens nascidos entre 1997 e 2012 não apenas frequentam mais os cinemas do que outras faixas etárias, como também lideram os gastos e ditam novas dinâmicas de consumo; consolidando-se como a força motora da indústria.
Os dados são expressivos: 87% da Geração Z afirmam ter assistido a pelo menos um filme no cinema nos últimos 12 meses, a maior taxa entre todas as gerações analisadas. Em média, esse público vai às salas cerca de sete vezes por ano, superando espectadores mais velhos tanto em frequência quanto em ticket médio. Além do ingresso, os jovens investem mais em produtos de bombonière e em experiências premium, como salas IMAX e projeções em 3D, evidenciando uma disposição maior para pagar por qualidade e imersão.
Esse engajamento, no entanto, não se explica apenas por hábitos de consumo, mas por uma mudança mais profunda na função cultural do cinema. Para a Geração Z, a ida às salas deixou de ser uma atividade individual ou ocasional e passou a operar como um evento social. O cinema é, antes de tudo, um destino coletivo — um espaço de encontro com amigos, frequentemente integrado a outras atividades, como jantares e passeios. Trata-se de uma experiência que extrapola o filme em si e se insere em uma lógica mais ampla de sociabilidade.
Essa dimensão social diferencia de forma clara o comportamento da Geração Z em relação aos Millennials. Enquanto os mais jovens buscam o cinema como extensão da vida social, os Millennials — nascidos entre 1981 e 1996 — tendem a encarar a experiência como uma forma de escape da rotina. Para esse grupo, o valor do cinema está associado ao relaxamento e à desconexão, muitas vezes em contextos mais íntimos, como programas a dois ou em família.

As diferenças se estendem também ao planejamento da experiência. A Geração Z apresenta maior espontaneidade, decidindo frequentemente ir ao cinema no próprio dia da sessão, enquanto os Millennials tendem a organizar suas idas com antecedência, equilibrando fatores como orçamento e logística. Essa distinção revela não apenas hábitos distintos, mas também diferentes relações com o tempo e o consumo cultural.
Outro aspecto central dessa transformação está na forma como os filmes são descobertos e promovidos. Nesse campo, o TikTok desempenha um papel decisivo. Para a Geração Z, a plataforma se consolidou como principal canal de descoberta de novos títulos, superando a publicidade tradicional e até mesmo outras redes sociais. O interesse por filmes é frequentemente impulsionado por conteúdos gerados por usuários, como memes, resumos e análises informais — os chamados “TikTok debriefs”.
Essa lógica de circulação de conteúdo altera o próprio ciclo de consumo. O filme deixa de ser apenas um produto final e passa a integrar um ecossistema de conversas digitais, no qual a experiência de assistir se prolonga em discussões, reações e compartilhamentos online. Em alguns casos, a jornada do espectador já inclui a possibilidade de compra de ingressos diretamente dentro da plataforma, evidenciando uma integração crescente entre descoberta e transação.
A Geração Z também se destaca por seu interesse em conteúdos alternativos nas salas de cinema. Cerca de 89% desse público demonstram interesse em assistir a eventos que vão além dos filmes tradicionais, como transmissões esportivas, shows, estreias de séries e relançamentos. Embora os Millennials também apresentem alta adesão a esse tipo de programação (83%), o engajamento dos mais jovens é ainda mais intenso, indicando uma ampliação do papel das salas como espaços multifuncionais de entretenimento.
No campo estético, emergem preferências que desafiam certas tendências da indústria. Quase metade da Geração Z afirma desejar menos conteúdo de natureza sexual nas produções contemporâneas, apontando para uma possível saturação desse tipo de abordagem. Essa posição pode ser interpretada à luz da dimensão social da experiência: ao frequentar o cinema em grupo, esse público tende a valorizar narrativas mais alinhadas ao compartilhamento coletivo.

Apesar das diferenças, Geração Z e Millennials compartilham um ponto em comum: ambas são responsáveis por sustentar o crescimento recente do setor exibidor. Os dois grupos não apenas frequentam mais os cinemas, como também demonstram disposição para investir em experiências de maior valor agregado. Ainda assim, é a Geração Z que imprime o ritmo das transformações, redefinindo o cinema como um espaço híbrido — ao mesmo tempo físico e digital, individual e coletivo.
Nesse novo cenário, o futuro das salas de exibição dependerá cada vez mais da capacidade da indústria de dialogar com essas dinâmicas. Mais do que atrair espectadores, trata-se de compreender como eles se relacionam com o cinema em um contexto marcado pela convergência entre tecnologia, sociabilidade e cultura digital.