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Polarização é sombra perversa em filmes que tentam enquadrar Bolsonaro

Por Reinaldo Glioche

Logo na abertura de “No Céu da Pátria Nesse Instante”, documentário de Sandra Kogut em cartaz nos cinemas, um áudio da diretora recebendo uma negativa de uma cidadã sobre a possibilidade de acompanhá-la durante o período eleitoral. “Se for cineasta de esquerda não, agora se for pessoa de bem pode ser”, diz a voz. O momento está lá por duas razões: informar a audiência da dificuldade de conseguir partidários de Jair Bolsonaro para o documentário, porque a cineasta é de esquerda, e estruturar um raciocínio sobre intolerância que o filme entende culminar nos atos antidemocráticos de 8 de janeiro.

O documentário de Kogut se propõe a entender como a polarização política afetou o processo eleitoral em 2022 e para tanto elege alguns personagens – a maioria de esquerda. Há desequilíbrio na dimensão desses personagens e o filme frequentemente parece desligar-se de seus propósitos, contentando-se apenas com o yoyeurismo.

Em suas imperfeições, porém, serve como registro histórico – fundamentalmente do clamor do setor artístico brasileiro pelo fim da era Bolsonaro. É curioso que “No Céu da Pátria Nesse Instante” ganhe o circuito comercial no mesmo tempo em que “Apocalipse dos Trópicos”, novo documentário de Petra Costa, chega ao catálogo da Netflix.

No novo longa da diretora do indicado ao Oscar “Democracia em Vertigem” a ideia é investigar a relação cada vez mais umbilical entre os evangélicos e a direita brasileira. Na prática, o filme é uma sequência do documentário anterior e que aposta na dualidade de bem e mal, embora jamais reconheça essa estrutura, para viabilizar sua tese. O fascínio com a figura do pastor Silas Malafaia rende alguns ótimos achados – como quando o pastor murmura as palavras que o então presidente Bolsonaro falaria em um comício -, mas também representa limitações para o objeto do filme, que jamais tangencia aquilo que se propõe investigar.

Se “Apocalipse dos Trópicos” falha em entender as razões do estreitamento entre evangélicos e a direita brasileira – algumas teses já bastante difundidas são regurgitadas aqui e ali -, o filme de Petra é conceitualmente mais refinado e, diferentemente do de Kogut, não desfoca. As elaborações da cineasta como narradora e sujeito da obra contribuem para o filtro mais íntimo, o que ajuda a alicerçar seu projeto sob bases mais subjetivas do que “No Céu da Pátria Nesse Instante”.

Os filmes olham para os anos Bolsonaro como um período sombrio da democracia brasileira e, ao assumirem esse lado, abdicam de provocar reflexões mais perenes e alienam parcela relevante da audiência, contribuindo para uma polarização acéfala que atribuem, maiormente, ao outro lado. São produções inerentes ao zeigeist, mas que não o capturam de maneira polissêmica. É uma escolha legítima, mas de eficácia reduzida.

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