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Proliferação de trailers falsos no YouTube gera nova encruzilhada em Hollywood

Redação Culturize-se

Nos últimos anos, a proliferação de trailers falsos de filmes tem se tornado um fenômeno cada vez mais presente no YouTube. Criadores de conteúdo utilizam inteligência artificial para produzir vídeos que imitam materiais de marketing de grandes franquias, enganando espectadores desavisados e gerando milhões de visualizações. Um exemplo recente foi um trailer falso do novo filme do Superman, que misturava imagens autênticas com cenas geradas por IA, criando uma ilusão convincente para muitos usuários. Até a televisão francesa foi enganada, exibindo imagens do ator David Corenswet no traje do herói meses antes de qualquer material oficial ser divulgado.

Os trailers falsos não são uma novidade. Desde os primórdios do YouTube em 2005, vídeos do tipo já circulavam, como o famoso “Titanic 2: Jack’s Back”, que imaginava Leonardo DiCaprio ressuscitando em Nova York. No entanto, a chegada da inteligência artificial mudou radicalmente esse cenário. Hoje, canais como Screen Culture e KH Studio usam IA para produzir trailers falsos em escala industrial, combinando imagens geradas por máquinas com trechos reais de filmes. Isso gerou um mercado lucrativo, onde alguns criadores conseguiram transformar a produção de trailers fictícios em um negócio de milhões de dólares.

Uma reportagem do Deadline no último fim de semana lançou luz nessa realidade.

Um dos principais expoentes desse movimento é Nikhil P. Chaudhari, criador do canal Screen Culture. Baseado na Índia, ele transformou sua paixão por cinema e edição de vídeo em um império digital. Seu canal, que já acumulou mais de 1,4 bilhão de visualizações, produz semanalmente até 12 trailers falsos de filmes populares, sempre utilizando IA para gerar detalhes inéditos que atraem o público. Ao longo do último ano, Screen Culture criou 23 versões diferentes de um suposto trailer de “The Fantastic Four: First Steps”. Em algumas buscas no YouTube, esses vídeos até superaram o trailer oficial da Marvel.

O modelo de negócio desses canais baseia-se na monetização dos vídeos por meio de anúncios. Com algoritmos que favorecem conteúdos novos e populares, vídeos de canais como Screen Culture frequentemente aparecem no topo das buscas e são recomendados a milhões de usuários. Além disso, muitos espectadores acabam caindo na armadilha dessas produções. Alguns acreditam estar assistindo a trailers autênticos, enquanto outros acessam o conteúdo por curiosidade ou ódio, deixando comentários indignados.

Foto: Divulgação

Os estúdios de cinema, por sua vez, têm adotado posturas ambíguas em relação ao fenômeno. Algumas empresas, como Warner Bros. Discovery, Sony e Paramount, optaram por monetizar os vídeos falsos em vez de bani-los, garantindo assim uma parcela da receita gerada por esses conteúdos. Outras, como Amazon, solicitaram a remoção de vídeos que utilizavam sua propriedade intelectual sem autorização. Enquanto isso, o sindicato SAG-AFTRA condenou essa prática, argumentando que tais vídeos exploram a imagem e a voz de atores sem consentimento, desvalorizando o trabalho humano em prol de ganhos financeiros de curto prazo.

A crescente sofisticação dos trailers falsos também gerou preocupações sobre o impacto da IA na indústria do entretenimento. Além de criar materiais enganosos, algumas dessas produções exploram a sexualização de personagens femininas para atrair mais visualizações. Em um caso polêmico, um trailer falso de uma sequência fictícia de “Divertida Mente” apresentava a personagem Riley Andersen com uma aparência sexualizada, o que gerou críticas sobre o uso irresponsável da tecnologia.

Diante desse cenário, o YouTube tomou medidas para coibir a monetização de conteúdos enganosos. Após a reportagem do Deadline, a plataforma desativou a geração de receita para os canais Screen Culture e KH Studio, alegando violação de suas políticas de monetização e desinformação. Segundo as diretrizes da plataforma, vídeos que utilizam material de terceiros precisam ser significativamente modificados para serem considerados originais. Além disso, conteúdos que distorcem a realidade de maneira a enganar os espectadores são proibidos.

A decisão de desmonetizar esses canais representa um golpe para criadores que construíram negócios milionários em torno de trailers falsos. O fundador do KH Studio defendeu sua produção, afirmando que seu objetivo sempre foi explorar ideias criativas, e não enganar o público. No entanto, a desmonetização pode levar muitos desses criadores a repensar suas estratégias ou buscar novas maneiras de lucrar com esse tipo de conteúdo.

Enquanto isso, questões mais amplas sobre o impacto da IA na criação de conteúdo continuam a ser debatidas. A tecnologia tem facilitado a produção de vídeos impressionantes, mas também tem levantado questões éticas sobre direitos autorais, manipulação digital e o futuro da criatividade humana. Com a crescente pressão de sindicatos e criadores de conteúdo autênticos, plataformas como YouTube podem precisar reforçar suas políticas para garantir que a IA seja usada de maneira responsável e transparente.

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