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“F1” acelera na contramão de Hollywood e entrega o que promete

Redação Culturize-se

Desde seus primeiros minutos, “F1″ se apresenta como mais do que um drama esportivo luxuoso: é um filme ancorado na presença magnética de Brad Pitt, em seu papel mais carismático em anos. Como Sonny Hayes, um ex-piloto de Fórmula 1 que ganha uma segunda chance nos circuitos após décadas afastado, Pitt encarna um tipo de herói que o cinema tem raramente ofertado na era dos blockbusters dominados por franquias, efeitos visuais e astros digitais: um homem comum com cicatrizes, falhas e uma história para contar — e cujo charme não vem apenas da aparência, mas da bagagem.

Pitt está com 61 anos e não tenta esconder isso. Ao contrário: “F1” se alimenta dessa maturidade e a transforma em narrativa. Sua presença de tela remete menos ao estrelismo invulnerável de Tom Cruise em “Top Gun: Maverick” — filme com o qual “F1” compartilha diretor (Joseph Kosinski) e co-roteirista (Ehren Kruger) — e mais à dignidade envelhecida de Paul Newman em “A Cor do Dinheiro”. Pitt, aqui, não quer parecer jovem: quer parecer humano. E consegue.

O personagem Sonny Hayes é um veterano desacreditado, convocado por seu ex-companheiro Ruben (Javier Bardem), agora dono de uma equipe decadente, para tentar salvar a temporada. Não é um chamado à glória imediata: Hayes é recebido com ceticismo pelos colegas, entre eles a engenheira-chefe Kate (Kerry Condon) e o promissor — e mimado — Joshua (Damson Idris). Mas Hayes tem mais do que experiência: tem instinto, manha, estratégia. E Pitt, por sua vez, tem presença, carisma, e a capacidade de transformar esse tipo de protagonista em algo maior do que o arquétipo do “veterano em redenção”.

Kosinski filma “F1″ com a mesma precisão e clareza narrativa que fizeram de “Top Gun: Maverick” um fenômeno. É cinema de estúdio feito com competência e convicção: sem ironia, sem metalinguagem, sem nostalgia forçada. A trama é clássica — há o conflito geracional, a tensão entre o talento e a arrogância, o antagonismo institucional de um dirigente sabotador (Tobias Menzies) —, mas tudo é conduzido com ritmo, foco e emoção. O filme respeita o público e entrega o que promete: adrenalina, sentimento e espetáculo.

E que espetáculo. As sequências de corrida são tecnicamente assombrosas, fruto de uma colaboração íntima com a Fórmula 1 real (Lewis Hamilton é um dos produtores). As câmeras acompanham os carros a centímetros do asfalto, capturando cada curva, cada frenagem, cada colisão com uma intensidade visceral. Não é só o som dos motores que pulsa — é o coração do espectador. Em certos momentos, “F1” lembra o impacto físico de “Mad Max: Estrada da Fúria”, com a diferença de que aqui o que está em jogo não é apenas a sobrevivência, mas o orgulho, a memória e a chance de ser lembrado.

Curiosamente, “F1” também funciona como um estudo sobre imagem pública. Assim como Sonny Hayes é uma lenda esquecida à espera de uma nova chance, Brad Pitt surge em seu papel mais simbólico desde “Era Uma Vez em… Hollywood”, que lhe valeu o Oscar. Suas questões pessoais — a longa batalha judicial com Angelina Jolie, as acusações públicas e o escrutínio da imprensa — são parte do contexto extratextual que ronda sua performance. E, ainda assim, ou talvez por isso mesmo, ele continua sendo um astro. Aquele que entra em cena, tira a camisa, e faz a audiência prender a respiração.

Se há algo de antiquado em “F1”, é precisamente isso que o torna especial. Em vez de tentar reinventar o gênero ou ironizá-lo, o filme o honra. A narrativa se desenvolve de forma previsível, sim, mas com cuidado e intenção: cada personagem tem um arco, cada obstáculo tem peso, cada vitória tem sabor. O relacionamento entre Sonny e Kate, por exemplo, poderia facilmente escorregar para o clichê do romance entre veterano charmoso e colega cética. Mas há algo de genuíno na forma como a relação floresce — mais como redescoberta do que como conquista.

Sinergia perfeita: Kosinski e Pitt no set | Fotos: Divulgação

Para além do entretenimento, “F1” traz uma lição valiosa para Hollywood. Em um cenário saturado por universos compartilhados, continuações apressadas e efeitos digitais inacabados, o filme mostra que é possível entregar um blockbuster de qualidade sem depender de propriedade intelectual reciclada. Basta ter uma história simples, uma direção segura, e um elenco que acredite no que está fazendo. “F1” é prova de que cinema popular não precisa ser raso. Pode ser direto, emocional, e ainda assim sofisticado.

Joseph Kosinski, com este filme, consolida-se como um dos mais eficientes diretores de ação e drama de sua geração. De “Tron: O Legado” a “Oblivion”, e passando pelo fenômeno de “Maverick”, sua marca está na clareza visual e na confiança narrativa. Em “F1″, ele prova que sabe exatamente onde pisar, e como acelerar. Como um bom piloto, não força a ultrapassagem: espera o momento certo, e quando ataca, é decisivo.

No fim, “F1” é sobre muitas coisas: sobre legado, superação, envelhecimento, segunda chance. Mas, acima de tudo, é sobre a força das histórias bem contadas, das atuações comprometidas, do cinema que emociona. E é também sobre a permanência das estrelas — aquelas que, como Brad Pitt, mesmo sob os holofotes mais implacáveis, continuam brilhando.

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