Por Reinaldo Glioche
Uma conversa casual se transformou em um dos projetos artísticos mais inovadores do cenário cultural brasileiro contemporâneo. A exposição “Uma Transa AntanticAmazônia”, em cartaz na Casa Seva, em São Paulo, conecta visualmente dois dos ecossistemas mais extremos do planeta através do olhar sensível de Jorge Bodanzky e João Paulo Barbosa, revelando as intrincadas relações entre a floresta tropical e o continente gelado.
A ideia nasceu de forma quase acidental, como relata Carolina Pileggi, fundadora da Casa Seva. Inicialmente, ela conversava separadamente com os dois fotógrafos sobre exposições individuais – João apresentaria a Antártica, Jorge mostraria a Amazônia. “No plano pessoal, sempre tive a percepção de que tudo está conectado. Acredito que cada ação, por menor que pareça na escala individual, repercute em outros lugares e realidades”, explica Carolina.
O momento de insight chegou quando ela decidiu unir os dois projetos. A receptividade foi imediata. Jorge Bodanzky, veterano das expedições amazônicas desde os anos 1980, abraçou a proposta com entusiasmo, falando sobre sua própria conexão com a Antártica. João Paulo Barbosa revelou uma série de coincidências impressionantes: havia visitado a Antártica pela primeira vez inspirado pelo trabalho de Jorge, usando inclusive o mesmo veleiro.
As sincronicidades não pararam aí. João trouxe para o projeto sua bagagem científica, explicando as conexões reais entre os dois ecossistemas. “As correntes, os rios voadores, o impacto das queimadas na Amazônia no degelo da Antártica e, por outro lado, como esse degelo também afeta o clima amazônico”, enumera Carolina, descrevendo as descobertas que fundamentaram cientificamente a intuição artística.
O curador Thiago Cóstackz entrou no projeto através do Prêmio Casa Seva, trazendo uma perspectiva que já vinha explorando conexões entre a Groenlândia e a Amazônia. Por mais uma coincidência – ou sincronia, como prefere a equipe –, ele também estava em contato com João para discutir temas glaciais. “Queríamos um texto curatorial que trouxesse a poética da exposição, mas também oferecesse ao público uma base sólida de informação”, explica Carolina.
Gerações em diálogo
Um dos aspectos mais ricos do projeto é o encontro entre gerações. Jorge conheceu a Antártica nos anos 1980, época em que João só tinha vislumbres daquele continente através do filme “Igor na Antártica”, dirigido pelo próprio Bodanzky. Décadas depois, quando João finalmente pisou no gelo antártico, encontrou uma realidade já bastante transformada.
“Esse contraste é um exemplo claro de como tudo está mudando rapidamente — e o quanto é urgente termos um olhar mais atento e cuidadoso para esses dois ecossistemas”, observa Carolina. A diferença de gerações, longe de criar obstáculos, enriqueceu profundamente o projeto, agregando camadas de experiência e conhecimento que se complementam na narrativa visual.
As condições adversas dos dois ambientes moldaram não apenas as expedições, mas também a estética das fotografias. João Paulo Barbosa desenvolveu o que chama de “fotógrafo-arqueiro minimalista” na Amazônia, onde as chuvas constantes limitavam o uso do equipamento. Na Antártica, o frio extremo que congela baterias, mãos e olhos obrigou-o a ser ainda mais preciso. “Em ambos ecossistemas, quando eu retiro a câmera da bolsa, a fotografia já está feita na minha cabeça, antes mesmo do ‘click’ de fato. O resultado é uma ‘estética zen'”, define o fotógrafo.
Jorge Bodanzky, por sua vez, mantém uma abordagem mais intuitiva. “Não me preocupa muito [a estética], pois eu faço na medida que eu vou sentindo as coisas e o momento que eu estou vivendo também”, explica. Seus trabalhos alternam entre momentos experimentais e outros mais ligados a questões ecológicas, sempre refletindo suas vivências no momento da criação.





Manifesto visual urgente
A exposição se posiciona como um “manifesto visual” sobre a crise climática, mas sem tom panfletário. A estratégia é despertar consciência através da beleza e da conexão emocional. “Quando a gente se reconhece como parte de um todo, passa também a assumir mais responsabilidade sobre as próprias escolhas e ações”, reflete Carolina.
João Paulo reforça a importância de abordar essa “transa” entre os ecossistemas, mesmo sem chegar imediatamente a soluções. As conexões entre Antártica e Amazônia são estudadas por cientistas brasileiros desde a década de 1980, revelando uma intensa interação: “queimadas tropicais e massas de ar polares. O resultado desta ‘transa’ é a estiagem na Amazônia e o degelo da Antártica”.
O processo de seleção das 21 obras privilegiou a intimidade sobre o documental. A série “In Natura” de Jorge foi escolhida por retratar a Amazônia “como se a câmera fosse um pincel”, resultando em imagens oníricas e experimentais. Das fotografias de João, foram selecionadas as mais íntimas, focando em detalhes ao invés de panoramas amplos de icebergs.
“Apesar de retratarem lugares distintos e terem sido feitas com técnicas diferentes, se complementam, se conversam e, acima de tudo, expressam a intimidade deles com cada um desses locais”, resume Carolina sobre a curadoria final.
Diálogos expandidos
Além da exposição, em cartaz até 2 de agosto, o projeto inclui encontros entre os fotógrafos e o público, onde compartilham experiências sobre mudanças climáticas e as relações entre os dois ecossistemas. A proposta é repetir esses diálogos com novos convidados, expandindo o debate para além das paredes da galeria.
“Uma Transa AntanticAmazônia” é um convite à reflexão sobre nossa responsabilidade individual dentro de um sistema planetário interconectado, onde as ações em um extremo do mundo reverberam no outro, lembrando-nos de que, em tempos de crise climática, não existem lugares distantes – apenas conexões que ainda não conseguimos enxergar.