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Renato Valle e a arte como espelho da violência estrutural brasileira

Redação Culturize-se

A exposição braꙄil, em cartaz no Museu de Arte Moderna Aloísio Magalhães (MAMAM), no Recife, não é apenas uma mostra artística — é um diagnóstico cirúrgico do Brasil. Renato Valle, artista plástico pernambucano com 40 anos de trajetória, usa pincéis, grafites e instalações para dissecar as feridas abertas de um país que insiste em repetir seus piores capítulos. Com 12 obras (11 inéditas), a exposição é um libelo contra o autoritarismo, a violência de Estado e a hipocrisia de uma república fundada em golpes.

O Brasil nas entranhas da arte

O título da exposição — com o “s” invertido — é a primeira provocação. “É um passado doentio que gerou um presente doente”, explica Valle em entrevista à revista O Grito. Essa inversão gráfica simboliza a distorção de um projeto de nação que, desde a colônia, alimenta-se de exclusão. Em Persistência doentia, o artista ressignifica Um jantar brasileiro (1827), de Debret, substituindo senhores de escravos por figuras contemporâneas em camisas da seleção. “A escravidão não acabou; só trocou de roupa”, ironiza.

A bandeira nacional também é alvo de sua crítica. Em uma das obras, a faixa “Ordem e Progresso” aparece rasgada, pendurada como um troféu de guerra. Em outra, Complexo de vira-lata, a bandeira dos EUA é infestada por cães abandonados — metáfora do Brasil como cópia mal-acabada de um projeto alheio. “Nossa primeira bandeira republicana foi uma imitação barata da norte-americana”, lembra Valle.

A série Bandido bom é bandido morto (2022), destacada no livro Renato Valle (Cepe Editora), é um dos eixos da exposição. Os desenhos retratam corpos em situações de vulnerabilidade extrema, prontos para serem aniquilados. “São vítimas de um Estado que escolhe quem pode viver”, analisa o curador Moacir dos Anjos. Para Valle, a violência não é acidental, mas estrutural: “Canudos, a Ditadura, o 8 de Janeiro — tudo é parte do mesmo ciclo”.

A única obra não inédita, Canudos, Caneca, Direta… e o Brasil não mais resiste (2006), é um painel de 7,73m x 2,5m que retrata Antônio Conselheiro como um fantasma flutuando sobre um fundo branco. “É um massacre que se repete: o primeiro presidente civil, Prudente de Morais, celebrou o extermínio de milhares”, diz o artista.

Educação ou barbárie

Valle não acredita em soluções fáceis. “Enquanto a educação for privilégio, a violência será regra”, afirma. Sua crítica ao sistema é contundente, mas não partidária: “Não discuto Lula ou Bolsonaro; discuto a perversão de um sistema que mantém castas”. Em Tecido Social, mapas do Brasil são costurados de forma grotesca, com linhas que se rompem — imagem de um país fragmentado pela desigualdade.

O artista evita panfletarismo. Sua abordagem é histórica e filosófica, como na instalação Espelho, espelho meu, que força o espectador a se enxergar na crise. “Não apontei o dedo para os outros; me vi primeiro nesse caos”, reflete.

Autodidata, Valle bebeu de fontes diversas. Do mestre Zuleno Pessoa, herdou a ética do ofício (“Morrer de fome faz parte; o importante é amar o que se faz”). De Francisco Brennand, absorveu a liberdade experimental. Suas referências visuais vão de Debret e Picasso a João Câmara, com quem compartilha o tom “mórbido e político” (nas palavras do curador Marcus Lontra).

O livro lançado pela Cepe — com textos de Moacir dos Anjos, Lilian Maus e outros — mapeia essa trajetória multifacetada. “Valle não anda sozinho”, escreve Joana D’Arc Lima, citando suas conexões com Reynaldo Fonseca, Vicente do Rego Monteiro e até Matisse.

Foto: Divulgação

Arte como resistência

Apesar do pessimismo confessado, Valle não desiste da arte como ferramenta de transformação. “Cada obra é um tijolo na construção de um olhar crítico”, diz. Sua exposição não oferece respostas, mas provoca perguntas incômodas: Por que aceitamos a violência como norma? Como romper com um passado que insiste em voltar?

Enquanto braꙄil ocupa o MAMAM, Renato Valle segue trabalhando. “A arte é minha trincheira”, afirma. E nela, ele continua a lutar contra a “banalidade do mal” brasileira — um mal que, como seu título sugere, está longe de ser superado.

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