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Inspirados por obras alheias, escritores de fanfic se ressentem do assédio da IA

Redação Culturize-se

No vasto e vibrante universo das fanfics, onde escritores criam histórias inspiradas em filmes, livros e jogos amados e as compartilham gratuitamente online, dois princípios fundamentais regem a comunidade: nunca lucrar com fanfiction e nunca roubar o trabalho alheio. Por isso, quando os autores descobriram, no início deste ano, que mais de 12 milhões de suas histórias haviam sido extraídas do site Archive of Our Own (AO3) e carregadas em uma plataforma de inteligência artificial de código aberto, a revolta foi imediata.

O responsável, um usuário identificado como “nyuuzou”, publicou esse imenso banco de dados na Hugging Face, uma plataforma de aprendizado de máquina fundada na França. A reação explodiu no Reddit (r/AO3) e no Tumblr, onde fãs criaram ferramentas para verificar se seus textos haviam sido copiados. Muitos, como a escritora de fanfic de Star Wars Nikki (usuária infinitegalaxies), ficaram horrorizados ao descobrir que dezenas de suas histórias estavam na base de dados — incluindo um ensaio coescrito que alertava justamente sobre os riscos da IA para a cultura fandom.

Em entrevista ao The Verge, Nikki descreveu a fanfic como uma “economia do presente” — na qual os criadores contribuem pelo prazer, não pelo lucro. Para ela e muitos outros, escrever sobre Reylo (o casal Rey e Kylo Ren) é uma forma de conexão, criatividade e comunidade. “Você faz isso em comunidade”, disse. “E agora vêm me dizer que vão despejar isso na tela em dois segundos? Isso é nojento.”

Criadoras como Nikki e Em (okapijones), outra autora de Reylo, fazem parte de uma subcultura ativa que já revelou até autoras best-sellers, como Ali Hazelwood. Para elas, fanfic não é apenas passatempo — é uma forma de criação transformadora, que reinventa narrativas e amplia o desenvolvimento de personagens. Como disse Em: “Fanfic mudou a minha vida. Conheci alguns dos melhores amigos que já tive na comunidade de fanfics.”

Mas agora, esse espaço está sob ameaça. Ao verem ferramentas como o Sudowrite ganharem espaço — muitas vezes ecoando termos e clichês comuns em textos do AO3 —, a preocupação virou alarme. A fronteira entre criatividade amadora e extração de dados não autorizada está se desfazendo.

Foto: Reprodução/Reddit

A Hugging Face removeu o banco de dados após notificações enviadas por autores individuais e pela OTW (Organization for Transformative Works), responsável pelo AO3. No entanto, nyuuzou posteriormente reenviou os dados para servidores na Rússia e na China, menos suscetíveis à aplicação de leis autorais. Contatado pelo The Verge, o usuário afirmou ser um estudante de 18 anos conduzindo “pesquisa legítima” e negou qualquer interesse pessoal por fanfics. Segundo ele, o objetivo seria desenvolver ferramentas para moderação e preservação de conteúdo — justificativas que soam vazias para autoras como Em. “Vai se foder, cara”, respondeu ela.

Críticos como Alex Hanna, diretora de pesquisa do Distributed AI Research Institute, questionam as alegações de boas intenções. “Por que alguém deixaria disponível um grande volume de dados não estruturados na internet, se não for para treinar um modelo de linguagem?”, disse ela ao The Verge. Hanna defende que plataformas como o AO3 redobrem os esforços para proteger o conteúdo gerado por seus usuários.

Apesar dos desafios, a comunidade de fanfic está reagindo. Alguns autores passaram a restringir o acesso aos seus textos com login obrigatório; outros estão deletando suas obras. E quando novas tentativas de extração aparecerem — como inevitavelmente acontecerá —, escritoras como Nikki prometem continuar lutando. “Não sou do tipo que procura briga”, disse ela. “Mas se vierem nos provocar, eu vou brigar.”

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