Redação Culturize-se
A economia brasileira chega à eleição de 2026 diante de um paradoxo conhecido: o país voltou a crescer e a gerar empregos, mas ainda não encontrou uma trajetória convincente de expansão sustentada. É justamente a tensão entre crescimento, responsabilidade fiscal e desenho institucional que aproxima os dois livros lançados recentemente no País do debate eleitoral. Eles ajudam a lembrar que a dificuldade brasileira não é apenas escolher entre mais ou menos Estado, mas construir instituições capazes de transformar recursos públicos em produtividade, investimento e bem-estar.
Os quatro anos do terceiro mandato de Lula precisam ser avaliados por esse prisma. O governo recuperou políticas sociais, elevou investimentos públicos, retomou o papel do BNDES e lançou o Novo PAC, ao mesmo tempo em que aprovou a reforma tributária do consumo e criou o novo arcabouço fiscal. Em 2025, o PIB cresceu 2,3%, depois de avanços expressivos em 2023 e 2024. O mercado de trabalho terminou 2025 em situação excepcional: a taxa anual de desemprego caiu para 5,6%, a menor da série iniciada em 2012, e o rendimento real habitual alcançou R$ 3.560.
Mas o mesmo período revelou o limite dessa estratégia. O crescimento não se converteu em uma redução suficientemente rápida da dívida pública, enquanto a política fiscal expansionista contribuiu para manter elevada a percepção de risco e, consequentemente, os juros. Em agosto, a Selic ainda está em 14% e o mercado projeta crescimento do PIB de apenas 1,98% para este ano. A inflação, embora tenha desacelerado, continua acima do centro da meta: o IPCA acumulou 4,26% em 2025 e estava em 4,44% em 12 meses até julho deste ano.
O programa de Lula para um eventual novo mandato oferece continuidade: preservação do arcabouço fiscal, reforma tributária, Novo PAC, neoindustrialização, valorização do salário mínimo e maior presença estatal em infraestrutura, habitação e ciência. O problema econômico central é conhecido: o governo aposta que crescimento e investimento permitirão compatibilizar inclusão social com melhora fiscal, mas ainda oferece poucos detalhes sobre redução estrutural de despesas. A controvérsia, portanto, não é entre gastar ou não gastar, mas sobre a composição do gasto e sua capacidade de elevar o crescimento potencial.
No campo oposicionista, Flávio Bolsonaro apresenta a ruptura mais explícita com o modelo atual. Seu programa propõe um novo regime fiscal vinculado à dívida, redução de ministérios, cargos e despesas administrativas, revisão de benefícios tributários e uma reformulação da reforma tributária, além de maior disciplina sobre estatais. É uma estratégia de consolidação fiscal mais dura, cuja dificuldade está em transformar cortes politicamente viáveis em economia efetiva sem comprimir investimentos e políticas sociais.

Ronaldo Caiado se apresenta como alternativa de direita institucional, defendendo estabilizar a dívida em dois ou três anos, barrar novas despesas e revisar benefícios fiscais. Romeu Zema, por sua vez, sustenta uma agenda liberal centrada em redução do tamanho do Estado, eficiência administrativa, equilíbrio das contas e maior participação privada. Em ambos os casos, o desafio é demonstrar como um ajuste fiscal poderá coexistir com crescimento, infraestrutura e redução das desigualdades regionais.
É nesse espaço que Renan Santos tenta apresentar uma proposta mais radical de reorganização do Estado. Seu programa coloca o ajuste fiscal no centro e propõe uma PEC para enfrentar a trajetória da dívida, com economia estimada em R$ 3,3 trilhões em dez anos. Também defende reformas administrativas, metas para gestores públicos, substituição do Bolsa Família por frentes de trabalho remuneradas, industrialização baseada em minerais estratégicos e medidas de segurança que ampliam a presença estatal em territórios dominados pelo crime.
A proposta de Renan liga disciplina fiscal, reforma institucional e produtividade. A ideia de transformar o Brasil de exportador de matéria-prima em fabricante de produtos de maior valor agregado, por exemplo, recoloca a política industrial em termos de soberania tecnológica. A questão é a execução: economizar trilhões em uma década depende de mudanças constitucionais, revisão de despesas obrigatórias e capacidade política para enfrentar grupos beneficiados pelo orçamento.
É aqui que “Entre crises: política econômica no Brasil da Nova República”, de Leonardo Weller e Thales Zamberlan Pereira, oferece uma chave de leitura. O livro identifica o paradoxo histórico de um país que conseguiu derrotar a hiperinflação, superar crises externas e ampliar direitos sociais, mas fracassou em sustentar crescimento elevado. A lição é incômoda para todos os candidatos: não existe solução duradoura que trate apenas do fiscal, apenas do social ou apenas do mercado. A experiência desde Sarney mostra que estabilização sem crescimento gera frustração; crescimento sem estabilidade produz crises.
O segundo livro, “Separação de Poderes e Emendas Orçamentárias”, de Ricardo Teixeira da Silva, acrescenta outra dimensão decisiva. Sua tese de que o fortalecimento do Congresso é compatível com a Constituição de 1988 ajuda a explicar por que nenhum presidente poderá executar seu programa econômico como se controlasse sozinho o orçamento. As emendas parlamentares alteraram a distribuição do poder sobre os recursos públicos, enquanto o Judiciário passou a interferir mais intensamente na arena orçamentária. O problema é estabelecer transparência, controle e eficiência em um sistema de poder compartilhado.

Os dois livros, lidos juntos, formam uma espécie de diagnóstico para 2027. O primeiro mostra por que o Brasil não consegue escapar do ciclo de crises e baixo crescimento; o segundo explica por que a engenharia política necessária para romper esse ciclo ficou mais complexa. O próximo presidente encontrará uma economia brasileira com emprego elevado, mas juros altos, dívida pressionada e crescimento potencial modesto. Encontrará um Congresso mais poderoso.
A eleição presidencial deve ser lida como disputa entre diferentes concepções de Estado. Lula oferece continuidade com maior investimento público; Flávio Bolsonaro, Caiado e Zema propõem graus distintos de ajuste e redução do Estado; Renan Santos procura combinar ajuste fiscal, reforma institucional, segurança e uma agenda de transformação produtiva.
Nenhuma dessas propostas elimina o dilema central identificado por Weller e Pereira: como produzir crescimento persistente sem destruir a estabilidade conquistada. E nenhuma escapa à questão levantada por Ricardo Teixeira: quem, afinal, terá poder para decidir onde o dinheiro público será gasto? A resposta a essas duas perguntas talvez seja mais importante que qualquer promessa eleitoral isolada. O eleitorado terá de avaliar custos, prazos, fontes de financiamento e capacidade de execução.