Reinaldo Glioche
Com um orçamento de US$ 200 milhões, carros reais de Fórmula 2 modificados por engenheiros da Mercedes e cenas filmadas durante fins de semana de Grandes Prêmios, “F1: O Filme” é uma fusão inédita entre autenticidade automobilística e espetáculo hollywoodiano. Dirigido por Joseph Kosinski (“Top Gun: Maverick“) e produzido por Jerry Bruckheimer, o filme traz Brad Pitt no papel de Sonny Hayes, um piloto aposentado de F1 que retorna ao esporte para ajudar uma equipe em dificuldades.
A ambição por trás do projeto é impressionante. Ao longo de dois anos de produção, a equipe fictícia APXGP não ficou apenas no roteiro — tornou-se uma presença real no paddock da F1. Foram construídos carros de verdade, assinados contratos de patrocínio legítimos no valor de mais de US$ 40 milhões e até houve compartilhamento de espaço no grid com as equipes reais durante os finais de semana de corrida. A mistura entre ficção e realidade não foi um truque: era o cerne da visão de Kosinski para trazer realismo cinematográfico a um esporte conhecido por sua precisão e espetáculo.
Em vez de depender de chroma key ou gráficos computacionais, os cineastas construíram carros totalmente funcionais com base em chassis de F2, aprimorados com kits de carroceria em fibra de carbono que imitam o visual atual da F1. Esses veículos passaram nos testes de segurança da FIA e foram pilotados em pista por Brad Pitt e pela co-estrela Damson Idris, após meses de treinamento intensivo. O nível de detalhe não parou nos carros — engenheiros da Mercedes embutiram 15 pontos de montagem para câmeras no design, permitindo que câmeras com resolução 6K captassem a ação de dentro dos cockpits em alta velocidade. Esses equipamentos leves e feitos sob medida permitiram que o diretor de fotografia Claudio Miranda e sua equipe monitorassem e ajustassem os enquadramentos em tempo real, usando lentes controladas remotamente — um feito técnico sem precedentes em filmes sobre corridas.
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Até mesmo imagens reais da Fórmula 1 foram reutilizadas para o cinema. Em uma sequência, o público pode acreditar que está vendo Pitt pilotar pela icônica Eau Rouge, em Spa, mas, na verdade, trata-se de imagens onboard do piloto Pierre Gasly, da Alpine, com os visuais digitalmente alterados para se encaixar na narrativa. É essa integração perfeita entre magia do cinema e corrida genuína que eleva “F1″ a algo singular.
Lewis Hamilton, heptacampeão mundial, não atuou apenas como produtor simbólico. Por meio de sua produtora, a Dawn Apollo Films, Hamilton trabalhou diretamente com os realizadores para garantir precisão em tudo — da escolha dos pneus ao ronco dos motores. Sua participação foi essencial para conquistar a confiança das dez equipes de F1 — um obstáculo importante, especialmente diante do ceticismo inicial de Red Bull e Mercedes, que hesitavam em participar após representações negativas da mídia, como na série “Drive to Survive”.

O modelo de distribuição híbrido do filme também reflete uma Hollywood em transformação. A Apple financiou o projeto, mas firmou parceria com a Warner Bros. para lançamento global nos cinemas, incluindo sessões em IMAX. Após sua exibição nas salas, “F1” será disponibilizado exclusivamente no Apple TV+, seguindo o modelo de outros títulos de prestígio da Apple, como “Assassinos da Lua das Flores”.
Com críticas iniciais elogiando o realismo e a energia do filme — e uma estreia global de US$ 150 milhões — “F1” pode ser mais do que um sucesso para os espectadores: pode também impulsionar o próprio esporte. Ou seja, “F1” é um motor de marketing a 300 km/h.