Por Reinaldo Glioche
Há algo de particularmente irônico no fracasso comercial de “Digger”. Um filme concebido a partir da associação entre dois nomes gigantes do cinema contemporâneo — Alejandro González Iñárritu e Tom Cruise — nasceu de uma aposta igualmente gigantesca e chegou às telas com a ambição de ser muitas coisas ao mesmo tempo. É sátira política, fábula ambiental, estudo de personagem, comentário sobre Hollywood, espetáculo apocalíptico e, em alguns momentos, quase uma experiência de autodestruição cinematográfica. É também o último filme lançado pela Warner Bros. antes da empresa ser integrada à Skydance, com a conclusão da compra pela Paramount. Trata-se de um filme adequado ao crepúsculo.
Com orçamento líquido de cerca de US$ 160 milhões, “Digger” arrecadou apenas US$ 8 milhões nos Estados Unidos em seu primeiro fim de semana e US$ 20 milhões mundialmente, recebendo nota C+ do CinemaScore. Segundo estimativas citadas pelo Deadline, o filme pode terminar com prejuízo próximo de US$ 150 milhões caso alcance apenas cerca de US$ 50 milhões de bilheteria global. É um resultado especialmente duro para Tom Cruise, cuja carreira recente parecia ter transformado sua presença em um dos poucos ativos ainda capazes de sustentar sozinho o modelo tradicional do blockbuster.
A questão, porém, é que “Digger” nunca parece ter sido concebido como um blockbuster convencional. A origem do projeto ajuda a explicar a contradição. Iñárritu desenvolveu a ideia inicialmente na Netflix, depois de Bardo, e chegou a ter Leonardo DiCaprio associado ao projeto. O filme acabou migrando para a Legendary e, posteriormente, para a Warner Bros., já pensado para Cruise. A associação entre o diretor mexicano e a estrela de “Top Gun: Maverick” justificou inicialmente um orçamento de US$ 125 milhões, que cresceu até os cerca de US$ 160 milhões da produção.
A premissa é tão extravagante quanto a produção. Cruise interpreta Digger Rockwell, um magnata do petróleo cujo projeto de perfuração provoca um desastre ambiental de proporções globais. A partir daí, Iñárritu constrói uma narrativa deliberadamente teatral, povoada por personagens caricaturais e situações absurdas, enquanto investiga a relação entre riqueza, exploração ambiental, entretenimento e responsabilidade coletiva.

Digger não é apresentado simplesmente como um vilão clássico. O personagem é grotesco, barulhento e repulsivo, mas o roteiro esconde sua verdadeira função dentro da história. A intenção é levar o espectador a rever sua percepção sobre ele e, consequentemente, sobre a própria engrenagem social que permite que personagens como aquele existam. A exploração da Terra para financiar a riqueza de poucos transforma-se em metáfora para uma sociedade que também consome, transforma tudo em espetáculo e participa, ainda que indiretamente, da própria destruição.
É aí que “Digger” se aproxima de uma tradição satírica que vai de “Dr. Fantástico” (1964) a “Não Olhe Para Cima” (2022), embora tente escapar da simplicidade da comparação. O filme quer falar sobre a crise climática, mas também sobre a maneira como o cinema e a mídia transformam tragédias em entretenimento. O próprio espetáculo que o público está assistindo passa a ser parte do problema discutido pela obra.
A ambição é evidente. A eficácia, atordoante.
Recepção
Parte da crítica enxergou justamente nessa contradição o principal defeito do filme. O Hollywood Reporter considerou a sátira excessivamente bombástica e autocentrada, enquanto a IndieWire avaliou que o filme empilha conceitos e camadas meta-narrativas numa tentativa de fazer com que sua própria complexidade se sustente. A crítica do New York Post foi ainda mais severa ao considerar Cruise pouco convincente na caricatura.

Outros críticos, contudo, encontraram no exagero justamente a razão de ser de “Digger”. A Empire reconheceu a grandiosidade visual de Emmanuel Lubezki e Dennis Gassner e considerou que Cruise consegue demonstrar novamente sua força como ator, para além de sua condição de estrela. A BBC, embora reconheça que o filme poderia ser mais curto, destacou a escala da atuação e a convicção da mensagem ambiental. Já o Deadline viu na obra uma experiência rara para o cinema comercial contemporâneo: uma sátira ambiciosa, original e disposta a correr riscos.
Essa divisão ajuda a entender o que há de mais interessante — e também mais frustrante — no filme. “Digger” parece existir permanentemente entre o controle e a perda de controle. É como se Iñárritu quisesse construir uma obra sobre uma civilização incapaz de frear seus próprios excessos e, para isso, tivesse decidido fazer um filme igualmente incapaz de frear os seus.
Tom Cruise é o centro dessa estratégia. A estrela aparece envelhecida, careca, grotesca e distante da imagem atlética e heroica que consolidou sua carreira. É uma escolha arriscada para um ator cuja persona cinematográfica está profundamente associada à juventude, à resistência física e à capacidade de desafiar limites. Em “Digger”, ele troca o herói de ação por uma criatura quase monstruosa.
E Cruise abraça a proposta. Seu desempenho é deliberadamente exagerado, com monólogos extensos e explosivos que remetem, em determinados momentos, à energia de “Questão de Honra”.
O curioso é que o próprio processo de produção parece refletir a lógica do personagem. “Digger” surgiu num ambiente em que grandes executivos apostaram que a combinação Cruise-Iñárritu seria suficiente para justificar uma produção monumental. O estúdio chegou a testar diferentes versões do filme. A primeira, cerca de meia hora mais longa, não funcionou bem. Uma segunda versão, reduzida, teve recepção melhor e se aproximou dos 129 minutos da montagem final.
Há, por fim, uma ironia adicional. “Digger” talvez tivesse encontrado uma recepção diferente caso fosse vendido como um projeto autoral de prestígio, próximo de “Birdman”, e não como um grande evento cinematográfico protagonizado por uma das maiores estrelas de Hollywood. A escala da produção pode ter sido incompatível com a natureza da obra. O filme pretende ser estranho, desconfortável e intelectualmente inquieto — características que nem sempre combinam com uma produção de US$ 160 milhões. Mas que bom que a Warner não se ateve às convenções. Foi recompensada com o Oscar ao apostar em Paul Thomas Anderson e em “Uma Batalha Após a Outra”.
Crítica: “Digger” aponta o dedo para a audiência em sátira consciente demais para formar unanimidade

O fracasso, portanto, não necessariamente encerra a discussão sobre “Digger”. Pelo contrário. Pode ser justamente o elemento que torna o filme mais revelador. Em uma indústria cada vez mais cautelosa com investimentos, a obra de Iñárritu é uma espécie de anomalia: um estúdio colocou uma fortuna nas mãos de um diretor autoral para que ele fizesse, com Tom Cruise, uma sátira ambiental deliberadamente incômoda.
O público respondeu com desconfiança. A crítica se dividiu. E a bilheteria foi implacável. Mas talvez exista alguma coerência nisso. Digger é um filme sobre uma sociedade que perdeu a capacidade de reconhecer seus próprios limites.