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"Digger" aponta o dedo para a audiência em sátira consciente demais para formar unanimidade

Por Reinaldo Glioche

Do que falamos quando falamos de “Digger”? Arte? Política? Meio Ambiente? Cultura? Consciência? Autoconsciência?  A ambição é escancarada. Assim como o refino estético. Alejandro González Iñárritu sempre primou pela grandiloquência, pela escala, pela agudeza do olhar e essas predileções moldam seu mais recente filme em um épico divisivo, criativo, ressonante e que adentrará os anais da história do cinema por muitas razões. Algumas delas tratadas neste texto.

“Digger”, o filme, não está rindo com a gente de nossa desgraça. Está rindo da gente. É uma diferença fundamental. O filme não busca nossa aprovação. Desdenha dela. É uma arte agressiva, que busca o deslocamento, o acinte, o incômodo. Para isso, Iñárritu escala o maior astro do cinema moderno para viver uma figura cafona, narcisista, asquerosa e repugnante. Digger, o personagem, é uma figura escatológica, mas também magnética. Psicoticamente sedutora. É um espelho distorcido de nossos desejos e Tom Cruise consegue dar a dimensão mais profana e nauseante dessa percepção. E percepção, como brada seu personagem em um dado momento, é realidade.

Há muitas escolhas criativas corajosas no curso do filme. Uma contingência de um cineasta altivo e absoluto como Iñárritu, que se vale de um olhar estrangeiro para discutir o decadente império americano. Esse mesmo olhar estrangeiro está a serviço de um debate ulterior: a arte ainda é capaz de provocar reflexões? O que fazemos com elas? O entretenimento deve prevalecer sobre a fidelidade dos fatos? Se os fatos estão postos, quem conta a história e de que maneira?

“Digger” certamente é um dos filmes mais importantes da década | Fotos: Divulgação

Alguns temas já haviam sido aventados em “Birdman” e não causa estranheza que a gênese de “Digger” enquanto projeto tenha se dado naquele momento histórico; mas “Digger” cava mais fundo na proposta de examinar o homem e o meio. O longa que pensamos ver se revela outro e outro e outro, sempre nos obrigando a recalibrar o olhar, as expectativas, as crenças. Iñárritu, o esteta, nunca fora tão provocador.

O vistavision, um formato de cinema widescreen de alta resolução que gira o filme puxando-o horizontalmente, é, neste sentido, uma escolha natural para a narrativa e para os choques que ela pretende ensejar na audiência.

A farsa nunca é completa. Há pistas do que ela esconde – e revela – desde a cena inicial. “Farsa, sátira, comédia, drama, tragédia, do que importa?”, questiona o personagem de Jesse Plemons em um momento nevrálgico do filme, um questionamento que a realização estende ao público. Plemons defende talvez o personagem mais trágico do filme e encapsula a culpa que nós, audiência, relutamos em assumir. É neste recorte, eminentemente político, que o filme revela sua face mais divisiva. “Digger” bate à esquerda e à direita. Não é um filme alinhado a nenhuma ideologia. A propósito, o filme escancara seu desapreço por ideologias que nos paralisam. O filme também mira sua bazuca para a guerra desinformacional e sugere que as ideologias foram por ela sequestrada.

Iñárritu e Cruise no set

“Digger” usa e abusa de metalinguagens, algo que Iñárritu já havia feito muitíssimo bem em “Birdman”, mas aqui a própria escalação de Cruise abre uma nova espiral metalinguística – algo potencializado pelos rumos da trama.

Tom Cruise não precisava fazer “Digger”. Depois de uma década dedicada a filmes de ação, ele se uniu a um cineasta intransigente para dar vida a um épico sobre ganância, alienação e a função social da arte. O ator abraça o caos performático e entrega um Digger Rockwell mambembe, mas complexo; vil, mas humano; sagaz, mas ingênuo. Cruise tangencia esses polos com acuidade e não hesita em caricaturar-se quando preciso. Um salto de fé na visão de Iñárritu que atinge seu ápice na cena do monólogo diante do Conselho Europeu. É uma cena para a posteridade e inegavelmente subscrita nos grandes momentos da carreira de Cruise.

A sátira é tanto uma ferramenta como uma plataforma e essa dinâmica é dominada com habilidade invejável por Iñárritu que flui semântica e esteticamente conduzindo sua audiência por assertivas filosóficas que ecoam depois dos créditos finais.

“Digger” é opulento, ruidoso e inadvertidamente tendencioso. Ele não quer fazer perguntas incômodas. Ele oferta respostas cretinas e sapateia sobre hipocrisias. Tudo com muita inteligência. O texto não é sutil e o exagero não só é premissa, mas método. Iñárritu segue acreditando na arte como instrumento de devassa: da alma; da sociedade; da política e, em última instância, de convicções. Deem a eles os fatos e ele lhes dará a História.

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