Redação Culturize-se
A Pinacoteca de São Paulo inaugura no dia 30 de agosto a exposição “Beatriz González: a imagem em trânsito”, a maior retrospectiva já dedicada à artista colombiana no Brasil. A mostra, em cartaz até 1º de fevereiro de 2026 no edifício da Pinacoteca Luz, reúne mais de 100 obras que percorrem seis décadas de produção de González, referência incontornável da arte latino-americana contemporânea. A curadoria é assinada por Pollyana Quintella e Natalia Gutiérrez.
Conhecida por seu olhar crítico e provocativo sobre a história da arte e os conflitos de seu país, González (1932, Bucaramanga) construiu uma trajetória marcada pela apropriação de imagens populares, pela experimentação com suportes não convencionais e pela denúncia da violência política. Sua obra tensiona fronteiras entre “bom gosto”, cultura popular e história oficial, colocando a arte a serviço da memória coletiva e da resistência.

Entre os destaques da mostra estão peças icônicas como Los suicidas del Sisga II e III (1965), que transformam uma notícia policial em imagem de forte carga simbólica, e Decoración de interiores (1981), uma cortina serigrafada com a imagem do então presidente Julio César Turbay Ayala, repetida como padrão decorativo, em uma crítica mordaz à superficialidade midiática e ao autoritarismo da época.
A política na estética
Ao longo de sua carreira, González fez da política uma dimensão indissociável da estética. Nos anos 1970 e 1980, passou a intervir em objetos de mobiliário — camas, mesas, televisores — pintando sobre eles cenas do imaginário religioso, popular ou político colombiano. Esse gesto de deslocamento radical ampliou o campo pictórico e redefiniu as fronteiras entre arte e vida cotidiana.
Outra vertente importante de sua pesquisa é a releitura de obras consagradas da história da arte ocidental. Em Sea culto, siembre árboles regale más libros (1977), por exemplo, González reinterpretou uma reprodução desbotada da pintura Mulheres no Jardim (1866–67), de Claude Monet, ressaltando a distância cultural entre a América Latina e a tradição europeia. “Aqui nunca vimos as originais; o que conhecemos são as imagens gastas pelo uso”, observou a artista em entrevista.
A curadora Pollyana Quintella destaca a relevância desses gestos no contexto latino-americano: “A obra de González revela como a imagem pode ser um campo de resistência e elaboração coletiva. Ela subverte os códigos da cultura de massa a partir de nossas urgências locais, com invenção e radicalidade”.
Violência, memória e resistência
Nos anos 1990, a artista aprofundou sua investigação sobre os impactos da violência na vida cotidiana, com obras que retratam lutos coletivos, funerais e a repetição banalizada de imagens de corpos anônimos. Em diálogo com a imprensa e a cultura visual da época, González trouxe para a arte o que muitas vezes era reduzido a estatística ou espetáculo midiático.
A mostra culmina com a série Pictografias particulares (2014), apresentada na Bienal de Berlim, em que a artista utiliza placas de trânsito para representar crises sociais como deslocamentos forçados, desastres ambientais e conflitos armados, reforçando sua capacidade de criar metáforas visuais universais a partir de símbolos do cotidiano.

Retorno ao Brasil
A exposição marca o retorno de González ao Brasil, 54 anos após sua participação na 11ª Bienal de São Paulo. Na época, a própria artista relatou ter ouvido que sua presença havia sido “precoce”. Décadas depois, a retrospectiva na Pinacoteca confirma a maturidade de sua obra e a pertinência de seu olhar. “Talvez não fosse minha obra que não tinha maturidade, mas a época histórica que ainda não estava pronta para compreendê-la”, refletiu.
Após a temporada em São Paulo, a exposição seguirá para o Barbican Centre, em Londres, e o Astrup Fearnley Museet, em Oslo, reforçando a presença de González no circuito internacional.