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A economia reprogramada

Redação Culturize-se

A inteligência artificial deixou de ser uma promessa tecnológica para se consolidar como vetor estrutural de transformação econômica, produtiva e social. Em diferentes frentes, da publicidade ao mercado financeiro, da gestão corporativa à formação de talentos, os sinais apontam para um movimento de difícil reversão, que redesenha não apenas modelos de negócio, mas também a própria lógica do trabalho e da geração de valor.

No campo da comunicação e do marketing, essa transformação já é visível. Eventos recentes como o Shoptalk e o IAB Newfronts evidenciaram um cenário em que a disputa central das marcas é pela atenção, que se mostra um recurso cada vez mais escasso. Em duas décadas, o tempo médio de atenção caiu 69%, enquanto o cérebro humano passou a registrar estímulos publicitários em menos de meio segundo. Nesse ambiente, a inteligência artificial emerge como ferramenta decisiva para capturar e converter atenção em ação.

Plataformas digitais vêm estruturando ecossistemas baseados em IA capazes de automatizar desde a criação de campanhas até a personalização de mensagens em escala. Recursos como geração automática de vídeos, tradução simultânea de conteúdos e uso de avatares para simular narrativas ampliam a capacidade produtiva das empresas sem exigir aumento proporcional de equipes. Mais do que otimizar processos, essas ferramentas alteram a linguagem da publicidade, que passa a ser moldada por dados em tempo real e pela lógica da cultura digital.

A centralidade do vídeo e dos criadores de conteúdo nesse ambiente reforça essa mudança. O conteúdo deixa de ser apenas comunicação e passa a ser infraestrutura de negócios. A IA, nesse contexto, atua como mediadora entre marcas, criadores e consumidores, organizando fluxos de informação e maximizando desempenho. O resultado é um sistema em que criatividade, distribuição e conversão se tornam indissociáveis.

Essa lógica de eficiência, no entanto, não se restringe à comunicação. No mercado de tecnologia, seus efeitos já produzem rupturas mais profundas. Em 2026, cerca de US$ 2 trilhões em valor de mercado de empresas de software foram eliminados em poucas semanas, refletindo a percepção de que o modelo tradicional de desenvolvimento, baseado em mão de obra altamente qualificada, está sendo rapidamente substituído por sistemas de IA generativa.

O chamado “vibe coding”, em que indivíduos orientam máquinas para criar sistemas complexos, reduz drasticamente o custo marginal do software. Quando a produção tecnológica tende ao custo zero, modelos baseados em licenciamento perdem sustentação. O impacto vai além das empresas: trata-se de uma reconfiguração do próprio ciclo econômico. Ao substituir atividades intelectuais, a IA reduz a participação do trabalho na geração de renda, deslocando valor para o capital e criando um desequilíbrio potencial no consumo.

Foto: Pexels

Esse fenômeno aponta para uma contradição central: a busca por eficiência máxima pode comprometer a sustentabilidade do sistema econômico. Se a tecnologia elimina empregos qualificados sem criar novas formas equivalentes de renda, o motor do consumo enfraquece. Nesse cenário, o valor tende a migrar para dimensões menos automatizáveis, como estratégia, criatividade contextual e capacidade de decisão.

Dentro das empresas, a adoção da inteligência artificial avança em ritmo acelerado. Hoje, mais da metade das organizações globais já utilizam IA em pelo menos uma área de negócio, aplicando a tecnologia em análise de dados, atendimento ao cliente e automação administrativa. O ganho de produtividade é evidente, mas vem acompanhado de riscos crescentes, especialmente no campo da segurança da informação.

A incorporação da IA muitas vezes ocorre de forma informal, sem políticas claras de governança. Isso amplia a exposição de dados sensíveis e cria vulnerabilidades estratégicas. O custo médio global de uma violação de dados já supera US$ 4 milhões, evidenciando que o risco não é apenas técnico, mas econômico. Nesse contexto, dados passam a ser o principal ativo das organizações e sua proteção, uma questão central de competitividade.

Além disso, decisões baseadas em sistemas automatizados carregam o risco de vieses e distorções, especialmente quando alimentadas por bases de dados incompletas. A IA, portanto, não elimina a necessidade de supervisão humana; ao contrário, exige um novo tipo de governança, capaz de equilibrar eficiência operacional e controle estratégico.

Esse cenário tem impacto direto sobre o mercado de trabalho. A demanda por competências relacionadas à inteligência artificial cresce rapidamente, enquanto habilidades tradicionais tornam-se obsoletas. Projeções indicam que até 2030 cerca de 37% das competências atuais precisarão ser adaptadas. Funções ligadas a IA, ciência de dados e cibersegurança estão entre as que mais devem crescer, com aumentos que ultrapassam 100% em alguns casos.

Ao mesmo tempo, empresas enfrentam escassez de profissionais qualificados, o que pressiona sistemas educacionais a se adaptarem. No Brasil, propostas em discussão buscam incluir IA e segurança digital no currículo básico, antecipando a formação de competências que hoje só aparecem em níveis mais avançados de ensino. A disputa por talentos já mobiliza estratégias como hackathons, bootcamps e programas de requalificação interna, evidenciando que a formação contínua se torna requisito estrutural.

A convergência desses movimentos indica uma transformação sistêmica. A inteligência artificial não atua apenas como ferramenta, mas como infraestrutura transversal que reorganiza cadeias produtivas, redefine relações de trabalho e altera a forma como empresas se posicionam no mercado. Comunicação, tecnologia, governança e educação passam a operar sob uma mesma lógica orientada por dados e automação.

Nesse contexto, o desafio não é mais adotar ou não a IA, mas como integrá-la de maneira estratégica. Empresas que a tratam apenas como instrumento de produtividade correm o risco de ignorar suas implicações mais profundas. Por outro lado, aquelas que conseguem alinhar tecnologia, governança e desenvolvimento humano tendem a capturar valor de forma mais sustentável.

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