Por Reinaldo Glioche
Filmes, especialmente documentários, sobre empregadas domésticas não são estranhos ao cinema brasileiro. De “Que Horas Ela Volta?” (2015), de Anna Muylaert, a “Doméstica” (2012), de Gabriel Mascaro, a profissão já serviu a teses sociais bastante ressonantes. Nada, porém, que se assemelhe ao que Karol Maia tangencia em “Aqui Não Entra Luz”. A começar pelo fato de que o filme parte de seu esforço de compreensão e reconhecimento da sua própria mãe, que muito relutantemente surge como uma personagem no filme.
Maia se coloca como uma presença no documentário, ora como uma voz interpelativa, ora como corpo, principalmente quando sua mãe está em cena, quase como um desagravo à sua história, aos sentimentos que fora impelida a revelar a desconhecidos por meio do projeto de sua filha.
De Minas Gerais, Rosarinha relembra os sonhos interrompidos da infância. Quando criança, queria ser professora. No Rio de Janeiro, Cristiane compartilha histórias duras, mas também o seu despertar, quando abordou a patroa para dizer: “Eu quero conhecer o mundo, quero saber como o mundo é”.

Do Maranhão, Mãe Flor imprime leveza e força à narrativa. Entre histórias e canções, ela afirma: “Minha bisavó foi escrava, mas eu nunca fui”, antes de celebrar sua trajetória com bom humor e cantando “eu já rodei o mundo inteiro e não encontrei uma cabocla mais sabida do que eu”.
Na Bahia, Marcelina confronta uma das expressões mais comuns e problemáticas da relação com as empregadas domésticas: “Não gosto dessa frase ‘como se fosse da família’. Não sou da família. Me sinto desrespeitada”. Sua fala desmonta, com precisão, uma lógica que mascara desigualdades profundas sob a aparência de proximidade.
Sem hierarquizar histórias, o filme aposta na escuta como mecanismo de construção. De memória e reparação. É por meio desse processo que Maia cronifica um Brasil colonialista e sectário, mas também dignifica a resiliência de mulheres que parecem não se dar conta da fortaleza que são.
Curar histórias de maneira tão delicada sem perder de vista um comentário social envolto em aspereza e desconfiança não é uma equação fácil, mas Maia sai-se muito bem ao permitir que seu filme respire através da humanidade desconcertante de personagens que prescindem da validação da audiência. Essa, por sinal, é uma escolha narrativa poderosa e que diz muito sobre um tipo de cinema que abraça pautas sociais sem se legitimar por elas.