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“Só por uma Noite” tenta reinventar a comédia romântica para a geração Z

Por Reinaldo Glioche

Manter a relevância da comédia romântica em tempos cada vez mais cínicos tem se provado um desafio para Hollywood. O gênero, que durante décadas ocupou um espaço importante no cinema comercial americano, foi progressivamente relegado ao streaming no começo dos anos 2000. A Netflix soube explorar esse território e, a partir dele, chegou a revelar nomes como Noah Centineo, Lana Condor, Joey King e Sofia Carson. Mas a comédia romântica ensaiou uma retomada nas salas de cinema a partir de meados da década de 2010 e, em 2026, parece suficientemente sólida para voltar a ser tratada como um gênero capaz de mobilizar público.

Um dos responsáveis por essa retomada é o cineasta Will Gluck. Há três anos, com “Todos Menos Você”, estrelado por Glen Powell e Sydney Sweeney, ele conseguiu uma expressiva bilheteria justamente ao compreender uma característica importante do espectador contemporâneo: o cinismo. Os protagonistas daquele filme se relacionavam com o público a partir da ironia, do distanciamento e de uma espécie de consciência de que estavam dentro de uma comédia romântica. Ao mesmo tempo, o filme incorporava alguns paradigmas da geração Z à estrutura clássica do gênero.

A premissa era conhecida: duas pessoas que se encontram por acaso não se dão muito bem, mas são obrigadas, por uma circunstância inusitada, a fingir que são um casal. Como manda a cartilha da comédia romântica, a encenação acaba se transformando em sentimento verdadeiro.

“Só por uma Noite”, novo filme de Will Gluck, parte de uma estrutura narrativa semelhante, mas radicaliza sua premissa. Em uma realidade alternativa, o sexo entre solteiros está proibido nos Estados Unidos. O governo implantou um chip em cada pessoa solteira, capaz de monitorar seus movimentos e impedir que ela desobedeça às regras. Parece ficção científica, mas o filme não está particularmente interessado em construir uma distopia. A premissa serve, sobretudo, para colocar seus protagonistas diante de uma situação extrema.

Owen, vivido por Callum Turner, um ator cada vez mais à vontade no papel de leading man, e Allie, interpretada por Monica Barbaro, uma atriz cuja beleza e talento ainda parecem não ter recebido do público a atenção que merecem, embora ela já tenha sido indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por “Um Completo Desconhecido”, são os protagonistas dessa inconfessa aventura.

Fotos: Divulgação

Os dois são neófitos na comédia romântica, e isso ajuda a trazer certo frescor ao filme. A química funciona. Owen e Allie se trombam, literalmente, e não existe uma simpatia imediata entre eles. Mas as circunstâncias fazem com que continuem se encontrando ao longo da única noite em que os solteiros estão autorizados a fazer sexo. E, à medida que a noite avança, as resistências também diminuem.

É justamente aí que “Só por uma Noite” fica mais interessante. Mais do que tentar compreender a geração Z — uma geração que, por diferentes razões, demonstra uma relação mais resistente à nudez e ao sexo no cinema — o filme tenta se comunicar com ela. Mais do que isso: tenta acolhê-la.

Isso não significa que o sexo tenha desaparecido. Há cenas de sexo e nudez, ainda que relativamente pudicas. Mas elas estão inseridas em uma proposta que parece interessada em desconstruir um paradigma bastante corrente em Hollywood (e na vida): o de que o sexo é vital para estabelecer a conexão entre duas pessoas.

Se essa estratégia será comercialmente bem-sucedida, é outra questão. O que interessa é que “Só por uma Noite” se propõe a ser um filme paradigmático. Existe nele uma tentativa bastante consciente de fazer uma transição entre a comédia romântica dos millennials e aquilo que se apresenta como alternativa à geração Z.

A premissa, por si só, já contém uma contradição divertida. Em uma noite em que os solteiros finalmente podem fazer sexo sem serem monitorados pelo governo, Phil e Alex estão interessados justamente em encontrar alguma coisa que vá além do sexo. Procurar conexão afetiva quando todo mundo ao redor está interessado apenas em “fazer sacanagem” pode parecer uma escolha deslocada. E é justamente esse deslocamento que permite ao filme recuperar uma característica que parecia perdida no gênero: a pureza do romance.

No fundo, “Só por uma Noite” quer devolver à comédia romântica aquilo que está no próprio nome do gênero. A comédia continua presente, mas o romance deixa de ser apenas uma consequência inevitável da fórmula e volta a ocupar o centro da narrativa.

É uma tentativa de atualizar um gênero sem abandoná-lo. Will Gluck entende que não adianta simplesmente reproduzir as mesmas fórmulas que fizeram sucesso duas décadas atrás, assim como não parece interessado em transformar o gênero em um manifesto sobre os hábitos afetivos da geração Z.

O resultado é um filme que consegue ser bem-sucedido justamente nos diferentes ângulos em que se propõe a problematizar o gênero e o seu público atual. Talvez seja cedo para dizer que “Só por uma Noite” inaugure uma nova fase da comédia romântica. Mas é significativo que, em uma época tão pouco interessada em acreditar no amor, Hollywood ainda esteja disposta a tentar descobrir como contar histórias sobre ele.

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