Por Reinaldo Glioche
Já foram mais de oito filmes. Houve a longa e popular série estrelada por Milla Jovovich, conduzida, ora na direção, ora na produção, por Paul W. S. Anderson. Houve tentativas de aproximação com os jogos, recomeços, correções de rota e diferentes leituras daquele universo de corporações sombrias, cidades amaldiçoadas e criaturas grotescas. E quis o destino que “Resident Evil” encontrasse sua melhor adaptação cinematográfica justamente quando decidiu diminuir de escala.
O novo filme, dirigido e escrito por Zach Cregger, parte de uma premissa quase banal. Um homem comum, sem atributos heroicos aparentes, atravessa uma nevasca para entregar o que acredita ser um órgão a um hospital em Raccoon City. No caminho, surgem os primeiros sinais de que algo está profundamente errado: um cachorro monstruoso, uma mulher que se lança diante do carro, estranhezas que se acumulam e transformam aquela noite em um mergulho gradual no absurdo.
É uma ideia simples. E talvez seja justamente essa simplicidade que permita ao filme funcionar.
Cregger — que vem se consolidando como um dos nomes mais interessantes do horror contemporâneo desde “Noites Brutais” (2022) — parece compreender algo que muitas adaptações de videogame ignoraram: não é preciso abraçar toda a mitologia de uma franquia ao mesmo tempo. Não é necessário transformar cada cena em uma referência ou cada personagem em um aceno para os fãs. Antes de tudo, é preciso fazer um bom filme.
E “Resident Evil” é, antes de ser uma adaptação, um bom filme de terror.
Cregger domina a gramática do gênero com rara precisão. A tensão cresce gradualmente, os sustos existem, mas não dependem apenas da manipulação mecânica do espectador. O filme assusta, mas também diverte. Há humor, e um humor genuíno, que nasce da situação absurda em que o protagonista se encontra.
Muito disso passa por Austin Abrams, que interpreta esse sujeito desajeitado, quase deslocado, tentando sobreviver a acontecimentos que desafiam qualquer lógica. Sua reação diante do horror é frequentemente mais humana do que heroica, e isso ajuda a criar uma identificação imediata com o público.

Existe, aliás, uma continuidade interessante entre “Resident Evil” e “A Hora do Mal” (2025), filme anterior do cineasta. Em ambos os filmes, Cregger demonstra um interesse maior pela construção da atmosfera do que pela explicação exaustiva dos acontecimentos. O mistério importa. A sensação de estranheza importa. Nem tudo precisa ser esclarecido para funcionar. E é justamente nesse terreno que o diretor encontra o espírito dos jogos.
À medida que o filme avança, ele incorpora discretamente elementos da experiência do videogame. Algumas escolhas de enquadramento remetem à perspectiva do jogador; determinadas construções visuais evocam a sensação de exploração e vulnerabilidade que tornou “Resident Evil” uma das franquias mais importantes do horror eletrônico. Não se trata de reproduzir mecanicamente a linguagem dos games, mas de traduzi-la para o cinema. O mérito está em fazer isso sem perder o controle narrativo.
“Resident Evil” não é o melhor filme de terror do ano. Tampouco indispensável para os fãs do gênero. Mas oferece algo que a franquia cinematográfica, depois de tantas tentativas, ainda não havia encontrado: um entretenimento honesto, criativo e consciente de suas próprias dimensões.
Às vezes, para uma grande franquia funcionar, ela precisa deixar de pensar em ser grande.
E talvez a maior qualidade deste “Resident Evil” seja justamente essa: entender que o horror nasce menos da escala da ameaça e mais da sensação de estar perdido, à noite, em uma cidade onde tudo parece errado — e ninguém sabe exatamente por quê.