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Gore Verbinski retorna com uma sátira febril sobre a era algorítmica

Por Reinaldo Glioche

Há diretores cuja filmografia parece se organizar em ciclos de visibilidade e apagamento. Gore Verbinski é um caso exemplar. No início dos anos 2000, ele construiu uma sequência rara de relevância industrial e impacto cultural: dirigiu “A Mexicana”, reunindo Brad Pitt e Julia Roberts em um produto de estúdio eficiente; deu tração à onda de refilmagens horror asiáticos com “O Chamado”; e, sobretudo, estabeleceu as bases de uma das franquias mais lucrativas da história com “Piratas do Caribe: A Maldição do Pérola Negra”. Depois disso, alternou bons momentos, como “Rango”, com projetos menos incisivos, até desaparecer por quase uma década após “A Cura”.

Seu retorno com “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” não poderia ser mais sintomático. Trata-se de uma comédia de ficção científica que, sob a superfície farsesca, funciona como um ensaio ansioso sobre o presente. A premissa é deliberadamente absurda: um homem — interpretado por Sam Rockwell e identificado apenas como “Homem do Futuro” — invade uma lanchonete em uma noite chuvosa de Los Angeles e tenta convencer estranhos de que a humanidade está prestes a ser subjugada por algoritmos e inteligência artificial. Incapaz de persuadir, ele recorre à coerção, ameaçando-os com uma suposta bomba para formar uma célula de resistência.

O que poderia facilmente descambar para o pastiche descontrolado é, na verdade, rigorosamente calibrado dentro de uma lógica de histeria narrativa. Verbinski compreende que o excesso, de informação, de estímulo, de paranoia, é a gramática do nosso tempo. O filme opera nesse registro: cada gag, cada situação aparentemente nonsense carrega um subtexto reconhecível. A tecnologia aqui não é apenas ferramenta, mas ambiente; não é apenas mediação, mas estrutura de captura.

Nesse sentido, o longa se insere em uma linhagem bastante clara. Se “Matrix” tensionava a relação entre tecnologia e ontologia no limiar do século XXI, e “A Rede Social” antecipava a reorganização das relações humanas a partir dos algoritmos, “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” atualiza essa discussão em um estágio posterior: o da inteligência artificial como mediadora quase total da experiência. Não se trata mais de “entrar” ou “sair” da rede — trata-se de reconhecer que já não há exterior.

O diferencial de Verbinski está no tom. Ao contrário de produções como “Black Mirror”, que frequentemente apostam em uma gravidade distópica, o diretor opta pela descompressão cômica. Seu filme não se leva inteiramente a sério — e é precisamente isso que o torna eficaz. Ao rir do absurdo, ele o torna assimilável; ao exagerá-lo, revela sua lógica interna. Há ecos de “O Exterminador do Futuro” e até de “Feitiço do Tempo”, mas filtrados por uma sensibilidade contemporânea, marcada pela saturação e pela sobrecarga cognitiva.

Foto: Divulgação

Grande parte desse equilíbrio se deve à performance de Sam Rockwell. Poucos atores transitam com tanta fluidez entre o registro cômico e o trágico. Aqui, ele constrói uma figura que poderia ser apenas caricatural, mas que ganha densidade pela convicção com que habita o delírio. Rockwell atua no limiar: seu personagem é simultaneamente ridículo e plausível, um profeta paranoico cuja loucura talvez seja apenas uma leitura exacerbada do real. É ele quem ancora o filme, impedindo que o caos narrativo se dissolva em irrelevância.

O elenco de apoio — com Juno Temple, Michael Peña e Haley Lu Richardson — cumpre bem a função de espelhar diferentes reações ao absurdo: incredulidade, adesão, oportunismo. São arquétipos, em alguma medida, mas conscientemente trabalhados como tais.

É importante reconhecer, no entanto, que “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” não é um filme de amplo apelo. Sua estrutura fragmentada, seu humor por vezes caótico e sua recusa em oferecer respostas claras podem afastar parte do público. Mas talvez esse seja justamente o ponto: Verbinski não está interessado em conforto, mas em fricção.

No fim, o filme se revela menos como uma narrativa sobre o futuro e mais como um diagnóstico do presente. Ao exagerar a lógica algorítmica até o limite do grotesco, seja na figura de adolescentes zumbificados, seja na ideia de uma realidade virtual que drena energia vital, ele nos devolve uma imagem distorcida, porém reconhecível, de nós mesmos.

Pode não ter a penetração cultural de seus predecessores mais ilustres, mas há algo de duradouro aqui. “Boa Sorte, Divirta-se, Não Morra” tem todos os elementos de um futuro cult: estranho, irregular, mas agudamente sintonizado com seu tempo. Verbinski talvez não recupere o protagonismo industrial de outrora, mas demonstra, com clareza, que ainda sabe ler — e traduzir — as ansiedades do mundo contemporâneo.

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