Por Reinaldo Glioche
Christopher Nolan é, indubitavelmente, um cineasta singular. Poucos realizadores contemporâneos combinam com tanta precisão exuberância técnica, domínio sobre o tempo e o espaço narrativos, ambição temática e uma assinatura estética imediatamente reconhecível. Mais do que isso, Nolan conquistou algo raro na Hollywood atual: a capacidade de transformar projetos autorais, complexos e frequentemente pouco convencionais em acontecimentos de massa.
A consagração de “Oppenheimer” no Oscar apenas legitimou um domínio que já vinha sendo construído havia décadas. O filme sintetizava muitas das sensibilidades cinematográficas do diretor: era uma produção monumental, mas também um drama íntimo; uma narrativa histórica, mas estruturada com o ritmo e a tensão de um thriller; um retrato biográfico, mas atravessado por questões existenciais sobre culpa, responsabilidade e as consequências do poder. Com três horas de duração, centrado no físico responsável pelo desenvolvimento da bomba atômica e capaz de se aproximar de US$ 1 bilhão em arrecadação mundial, “Oppenheimer” tornou-se um fenômeno de difícil reprodução.
Depois dele, “A Odisseia” parece uma consequência natural. Trata-se de um projeto que Nolan amadurecia havia muito tempo e que, de certa maneira, encontra um terreno mais favorável depois da experiência anterior. Mas é também um passo adiante em sua escala de ambição. Nolan sempre parece interessado em estabelecer objetivos que poucos cineastas ousariam delimitar para si — e, desta vez, o desafio é ainda mais evidente.
Essa trajetória recente ajuda a compreender o filme. Antes de “Oppenheimer”, Nolan havia realizado “Tenet”, provavelmente seu trabalho menos bem-sucedido. Ainda assim, seria injusto reduzir o longa a seus problemas. “Tenet” era um filme ambicioso, interessado em organizar ideias complexas sobre tempo, causalidade e percepção. O problema é que nem sempre um cineasta consegue estar à altura da própria ambição. Em alguns momentos, o mecanismo narrativo se torna mais importante do que os personagens e a engenharia conceitual acaba sufocando a experiência emocional.

“A Odisseia” retoma parte desse impulso, embora por um caminho diferente. É um filme menos intrincado do que “Tenet”, mas ainda mais monumental em sua concepção. Rodado inteiramente com câmeras IMAX — o primeiro longa da história a assumir esse formato de produção —, o projeto representa Christopher Nolan testando os limites da realização cinematográfica. A dimensão do elenco reforça a sensação de acontecimento: Matt Damon, Robert Pattinson, Zendaya, Tom Holland, John Bernthal, Charlize Theron, Anne Hathaway e tantos outros nomes compõem uma produção que parece concebida para ocupar a maior escala possível.
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E a marca do diretor está presente desde o princípio. “A Odisseia” é imediatamente reconhecível como um filme de Christopher Nolan. Estão ali a obsessão, o homem em conflito com a própria condição, a luta contra forças que parecem maiores do que qualquer indivíduo e a tentativa de reorganizar o passado para encontrar algum sentido no presente. São temas recorrentes em sua filmografia, agora aplicados à jornada de Odisseu.
Ainda assim, o filme decepciona em alguns aspectos fundamentais.
A culpa de Odisseu — sua condição de grande artífice do desfecho da Guerra de Troia e o peso da tragédia que se seguiu — já está inscrita no poema de Homero. Trata-se de uma dimensão essencial da narrativa: o retorno não é apenas uma viagem física, mas uma travessia moral e existencial. Odisseu não precisa somente reencontrar Ítaca. Precisa descobrir se ainda existe algum vínculo entre o homem que partiu e aquele que retorna.
Esse conflito foi explorado de maneira mais profunda por outras obras, inclusive por filmes que realizaram adaptações livres ou indiretas da Odisseia. Nolan parece excessivamente concentrado na forma, na escala e na potência visual do espetáculo. A estética se impõe com força, mas o existencialismo do texto de Homero nem sempre recebe a mesma atenção. O resultado é uma obra tecnicamente exuberante, mas emocionalmente intermitente.

Em muitos momentos, “A Odisseia” opta pelo deslumbre. E é bem-sucedida quando entende o espetáculo como uma ferramenta de contextualização: a grandiosidade das paisagens, a dimensão das batalhas e a força das imagens ajudam a traduzir a condição quase mitológica daqueles personagens. O problema surge quando a monumentalidade parece substituir a investigação humana. O filme se interessa mais pela dimensão épica da jornada do que pelas feridas que ela deixa em Odisseu.
Curiosamente, é na relação entre Odisseu e Penélope que o projeto encontra seu eixo mais forte. A história de amor funciona como uma possibilidade de absolvição diante do inferno que habita o protagonista. Essa ideia está presente de forma mais subliminar no poema original, mas ganha uma dimensão muito mais gravitacional na adaptação de Nolan. Penélope deixa de ser apenas o destino final da viagem e passa a representar a possibilidade de reconciliação com uma identidade perdida.
É essa relação que dá brilho ao filme. Porque, por trás de toda a grandiosidade, “A Odisseia” é uma história simples. É a trajetória de um homem amargurado, angustiado e em guerra consigo mesmo. Um homem que não sabe se realmente deseja voltar para casa. Ou, mais profundamente, que se pergunta se o homem que deixou Ítaca ainda existe.
Essas são as dores centrais da narrativa, mas o filme as aborda de maneira irregular. Elas surgem com força em determinados momentos e desaparecem em outros, frequentemente substituídas por novas demonstrações de escala e virtuosismo técnico. O conflito interno de Odisseu deveria ser o elemento capaz de organizar toda a jornada, mas acaba fragmentado pela necessidade constante de transformar cada etapa em um grande acontecimento cinematográfico.
Esse talvez seja o principal equívoco de “A Odisseia” enquanto proposta. Nolan compreende a dimensão épica do material, mas parece menos interessado em explorar sua fragilidade. O filme reconhece a angústia do protagonista, porém não permanece tempo suficiente dentro dela. A busca pela eloquência termina, paradoxalmente, enfraquecendo aquilo que poderia tornar a obra mais poderosa.

É um problema que remete a outros momentos da filmografia do diretor. “Interestelar”, por exemplo, também buscava conciliar uma narrativa de escala cósmica com conflitos íntimos e familiares. “Tenet” pretendia transformar conceitos abstratos sobre tempo em uma experiência de ação. Em ambos os casos, a ambição produziu sequências extraordinárias, mas também expôs fragilidades nos fundamentos dramáticos. Em “A Odisseia”, o fenômeno se repete: o cineasta mira tão alto que, em determinados momentos, perde de vista a simplicidade que sustenta a história.
Isso não significa que “A Odisseia” seja um filme ruim. Muito pelo contrário. É um filme muito bom, uma experiência cinematográfica potente e uma demonstração impressionante do domínio técnico de Christopher Nolan. Há imagens de enorme impacto, uma escala raramente vista no cinema contemporâneo e uma capacidade evidente de transformar uma narrativa ancestral em um evento audiovisual.
Mas o longa também tem limites. E esses limites revelam, acima de tudo, os próprios limites de seu diretor.
É possível reconhecer, ao mesmo tempo, um cineasta em pleno domínio de sua técnica e um autor que, ao perseguir uma grandeza quase absoluta, derrapa em fundamentos essenciais do cinema. Nolan continua capaz de alcançar tons elevadíssimos e de realizar projetos que outros diretores sequer ousariam imaginar. Porém, “A Odisseia” sugere que querer muito também pode atrapalhar.
No fim, o filme se torna, em certa medida, refém da grandeza de seu cineasta. A ambição que o torna extraordinário é a mesma que impede a narrativa de alcançar toda a profundidade que promete. “A Odisseia” impressiona, hipnotiza e, em diversos momentos, emociona. Mas poderia ser ainda mais poderosa se confiasse menos no espetáculo e mais no homem que atravessa o espetáculo.
Talvez seja essa a grande contradição do filme: Christopher Nolan domina quase todos os recursos necessários para construir uma epopeia definitiva, mas nem sempre permite que a dimensão humana sobreviva à imponência de sua própria realização.
