Por Reinaldo Glioche
Uma das grandes surpresas de 2025, “Chad Powers” chega à segunda temporada disposta a fazer algo que nem sempre é simples para uma comédia: mudar de tom sem perder a própria identidade. A série criada por Michael Waldron e Glenn Powell, estrelada pelo último, escurece consideravelmente sua narrativa, mas permanece genuinamente engraçada, preservando o nonsense e o coração que ajudaram a torná-la uma produção tão simpática em seu primeiro ano.
Russ Holliday assumiu a identidade de Chad Powers para tentar conseguir uma segunda chance no futebol americano universitário. O problema é que, quanto mais tempo passa dentro da mentira, mais difícil se torna separar o personagem do homem que existe por trás da máscara. Agora, Ricky (Perry Mattfeld), sua treinadora na equipe dos Catfishes, da Universidade da Geórgia, e interesse amoroso, sabe da farsa e se torna cúmplice dela. O que parecia inicialmente uma estratégia para reconstruir uma carreira começa a adquirir contornos muito mais complexos.
A temporada, novamente com seis episódios, encontra seu principal motor em Gerry (Colton Rayan), quarterback reserva dos Catfishes. Ressentido com a ascensão meteórica de Chad Powers enquanto permanece relegado ao ostracismo, ele transforma a frustração em uma espécie de vendeta pessoal. E, como costuma acontecer nesse tipo de história, a obsessão acaba levando Gerry à descoberta que pode destruir tudo: Chad Powers é, na verdade, Russ Holliday.

A partir daí, a série passa a trabalhar com uma tensão mais próxima do thriller. Mas o que realmente interessa a “Chad Powers” não é apenas a possibilidade de a identidade ser descoberta. É o que acontece com Russ quando ele percebe que talvez já não queira abandonar a identidade que criou.
Quanto mais ele é Chad Powers, mais desconfortável Russ Holliday parece estar dentro da própria pele.
Essa dualidade é provavelmente o aspecto mais sofisticado da temporada. Existe quase uma dimensão freudiana nessa transformação: Holliday passa por uma mudança emocional profunda sem compreender inteiramente o que está acontecendo consigo. Chad começa como uma máscara necessária, mas gradualmente se transforma em uma versão de si mesmo que Russ considera mais interessante, mais desejável e, em determinados momentos, mais verdadeira.
É justamente aí que a mentira deixa de ser apenas um recurso cômico e passa a funcionar como mecanismo dramático.
Glenn Powell comentou, durante a divulgação da temporada, que “O Silêncio dos Inocentes” foi uma referência importante para o novo ano. A princípio, parece uma associação improvável. Mas ela ajuda a compreender a mudança de tom. Há elementos de horror e suspense espalhados pelos episódios, sobretudo na utilização de máscaras, segredos, jogos duplos e na sensação de que a identidade do protagonista pode ser desvendada a qualquer momento. O mérito está em incorporar esses elementos sem abandonar o nonsense da primeira temporada.
A série consegue, assim, fazer uma pergunta consideravelmente mais interessante do que sua premissa sugeriria: uma mentira pode ser também um gesto de carinho, de proteção ou de abnegação?

Rick e Danny, primeiro cúmplice de Russ, chegam a confrontá-lo diante dos riscos que ele passa a assumir: afinal, qual é o objetivo de tudo aquilo? É nesse momento que a comédia esportiva revela uma camada inesperada. O conflito já não é simplesmente entre Russ e seus adversários. É entre Russ e a pessoa que ele está se tornando.
A segunda temporada é mais sombria, mas não perde o humor. É mais ambiciosa, mas não abandona a simplicidade que sempre esteve na essência da série. E talvez essa combinação explique por que “Chad Powers” consegue crescer sem parecer outra produção.
Os criadores já indicaram que a história foi concebida para percorrer um arco de três temporadas. Se esse planejamento for mantido, resta agora esperar pela confirmação do terceiro — e aparentemente último — ano por Hulu e Disney+.
Até lá, “Chad Powers” chega a um ponto curioso: a máscara continua funcionando, mas talvez ninguém mais saiba exatamente quem está por trás dela.