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"Lioness" cresce ao transformar espionagem em xadrez geopolítico

Por Reinaldo Glioche

É raro encontrar uma série que consiga melhorar a cada temporada. Pode-se contar nos dedos de uma mão os casos em que uma produção começa em nível elevado e, em vez de simplesmente repetir sua fórmula, ou decair, encontra maneiras de ampliar seu universo e sofisticar suas ambições. “Special Ops: Lioness” é uma delas.

Criada por Taylor Sheridan, a série chega ao fim de sua terceira temporada no Paramount+ com uma evolução significativa de escopo. A espionagem continua sendo seu centro gravitacional, assim como o aparato militar, as operações de inteligência e as missões clandestinas. Mas, neste novo ano, “Lioness” amplia consideravelmente o tabuleiro. A arquitetura de operações de espionagem cede espaço às maquinações geopolíticas e às movimentações de inteligência e contrainteligência com especial atenção às repercussões geopolíticas.

Fotos: Divulgação/Paramount+

A temporada começa com um acontecimento de enorme impacto: Joey, personagem de Zoe Saldaña e líder das Lioness — soldados treinadas para atuar cirurgicamente em operações de infiltração e espionagem — é sequestrada nos arredores de sua casa. O ataque contra uma oficial sênior da CIA imediatamente coloca a agência diante de uma situação sem precedentes.

A partir daí, a temporada se constrói como uma investigação em espiral. A CIA precisa primeiro recuperar Joey e, depois, compreender quem está por trás da operação. Mas cada resposta produz uma nova pergunta. Cada pista abre uma possibilidade diferente. Cada suspeita aponta para um caminho que pode ou não conduzir ao verdadeiro responsável.

É justamente nessa construção que a terceira temporada encontra sua maior força e a opção criativa de trabalhar com duas linhas temporais que se retroalimentam se prova perspicaz.

O elenco continua sendo um espetáculo à parte. Zoe Saldaña sustenta o protagonismo, enquanto Morgan Freeman segue emprestando toda a sua autoridade ao secretário de Estado; Michael Kelly interpreta o diretor de operações da CIA com sagacidade e desenvoltura e Nicole Kidman surge mais à vontade no papel da principal interface da agência de inteligência norte-americana. São atores capazes de conferir gravidade às cenas essencialmente políticas, mesmo quando a série acelera em direção à ação.

E há muita ação. As sequências são cuidadosamente coreografadas e mantêm a dimensão física que sempre esteve entre os atrativos de “Lioness”. A diferença é que, agora, elas parecem fazer parte de uma engrenagem muito maior. E surpreendentemente provocam menos tensão do que cenas em que joguetes políticos são aventados. No último episódio, uma cena em que se fala do assassinato de uma agente de inteligência estrangeira como uma decisão burocrática se mostra poderosamente estarrecedora para a audiência.

A série também ganha força ao incorporar elementos reconhecíveis do mundo contemporâneo — Venezuela, Groenlândia e a guerra entre Rússia e Ucrânia aparecem como referências dentro dessa arquitetura geopolítica. O mérito está em fazê-los funcionar organicamente dentro da trama, sem transformar necessariamente a série em um comentário sobre a atualidade.

Grande parte da terceira temporada foi escrita por Taylor Sheridan, e “Lioness” talvez seja, entre suas criações, aquela em que o autor mantém uma supervisão mais próxima. Essa presença parece se refletir na consistência da produção e na capacidade de fazer o universo da série avançar sem perder sua identidade.

O resultado é uma temporada que não apenas entrega aquilo que se espera de “Lioness”, mas redefine o tamanho de seu próprio jogo.

E talvez a maior satisfação de acompanhar a série esteja em perceber que uma produção que já nasceu em uma nota elevada de qualidade encontrou espaço para crescer. Ao fim deste terceiro ano, “Special Ops: Lioness” não parece mais apenas uma boa série de espionagem. É uma obra cada vez mais ambiciosa sobre o mundo subterrâneo em que as grandes potências disputam influência, informação e poder — quase sempre antes que o restante do mundo perceba que uma guerra começou.

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