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Fatalismo permeia o ótimo "A Avaliação"

Por Reinaldo Glioche

A ficção científica não precisa ser barulhenta para chamar a atenção para suas ideias. Por vezes, não precisa nem mesmo se ajustar aos parâmetros usuais da ficção científica. A diretora Fleur Fortune compreende perfeitamente esses pormenores e apresenta uma distopia tão perturbadora quanto intrigante e com apenas três atores em cena. Poderia até ser uma peça, mas nada na dinâmica de “A Avaliação” remete ao teatro. Ainda assim, são os atores que irrigam a dramaturgia com vigor, mas sem prescindir da vulnerabilidade.

Em um futuro indeterminado, a sociedade vive sob novos dogmas em um ambiente profundamente controlado. Mia (Elizabeth Olsen) e Aaryan (Himesh Patel) formam um casal de prestígio e com alguma influência social. Eles se inscrevem no programa institucional para se habilitarem a terem um filho. O processo de avaliação é rigoroso e ministrado por Virginia (Alicia Vinkander), que no curso de sete dias irá submeter o casal a provações inusitadas e a testes complexos.

O que interessa à cineasta francesa é investigar os ruídos de uma humanidade anestesiada diante de tanto caos e observar como os mecanismos de controle – o conflito central da trama – podem minar o que deveriam proteger. O longa aborda, ainda, por meio da metáfora da parentalidade, se há pelo que viver, pelo que ter esperança, em mundo desprovido de futuro. O que fazer com uma liberdade cheia de constrições?

Fortune não oferece respostas, mas perguntas cada vez mais inquietantes. Ela também observa como esses três personagens digladiam-se em meio a afetos, renúncias e desejos. É algo muito poderoso que é potencializado, especialmente pelas atuações das duas atrizes.

Em seu desfecho fatalista, cheio de boas reminiscências, “A Avaliação” persiste silencioso, como uma forma de luto não pelos personagens, ou pelas escolhas que eles fazem diante das diferentes epifanias vividas, mas pelo espectador diante da realização das próprias desesperanças.

Foto: Divulgação

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