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Os labirintos da depressão no contexto familiar movem “Um Filho”

Por Reinaldo Glioche

Relações familiares são complicadas e “Um Filho”, novo longa de Florian Zeller que, a exemplo do multipremiado “Meu Pai” (2020), é adaptado de uma peça de sua autoria, tem plena consciência disso. O roteiro então constrói grandes cenas para viabilizar um entendimento por parte da audiência de que o núcleo familiar que assistimos não está imune às complexidades da vida.

O longa começa com Kate (Laura Dern) batendo à porta de Peter (Hugh Jackman) para rogar que ele fale com o filho deles, que estava há mais de um mês sem ir à escola. “Você não pode simplesmente abandoná-lo”. Embora pareça uma frase solta qualquer, ela carrega uma bagagem pesada de mágoas, culpas e ressentimentos.

Nicholas (Zen McGrath) externa o desejo de ir morar com o pai, que precisa alinhar esse novo arranjo familiar com sua nova mulher (Vanessa Kirby), por quem Peter largou Kate – e em certa concepção Nicholas -, que acaba de ter um filho.

Fotos: divulgação

O menino demonstra irritabilidade, impaciência e falta de tato social, mas o pai não parece dar grande importância para esses sinais, atribuindo-os aos dissabores da fase adolescente. Peter está prestes a receber uma excelente proposta de trabalho e, não fosse por Nicholas, poderia se dizer que sua vida nunca esteve melhor.

A convivência com Nicholas, por mais boa vontade que Peter demonstre, é cheia de desafios e incompreensão e é justamente essa implosão emocional de pai, filho e núcleo familiar que o filme de Zeller foca.

Depressão

Demora um pouco até que o espectador se dê conta de que está vendo um filme que aborda a depressão na adolescência e um que a relacione iminentemente à traumática separação dos pais. É um mérito do desenho dos personagens e dos conflitos, erigidos em grandes cenas, sejam elas sutis ou não, por Zeller e seu colaborador Christopher Hamptom.

Um Filho” é uma obra triste e desorientadora enquanto veículo dramático, mas profundamente inflexiva enquanto experiência narrativa, já que registra a depressão com acuidade ímpar. Talvez por isso se mostre uma produção tão incômoda, tão desprestigiada por público e crítica.

O longa não versa sobre a preocupação com a depressão na adolescência, mas faz mais ao mostrar como pais, principalmente separados, são lenientes com o quadro que, de maneira geral, acabam por não compreender. Nesse sentido, “Um Filho” se mostra uma experiência fílmica poderosa por abordar a saúde mental em contexto e intensidade totalmente diferentes de “Meu Pai”.

Duas cenas chamam especial atenção. Uma com a participação de Anthony Hopkins, que vive o pai de Peter, sujeito omisso e que aparentemente não se arrepende de ter sido uma figura ausente, e outra em que Peter projeta algumas de suas fantasias para o futuro do filho. São confabulações nada taxativas de dores íntimas que vivemos como pais e filhos. Hugh Jackman, é preciso dizer, ostenta aqui um trabalho tão detalhista e minimalista que, quando explode, leva o público junto.

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