Patrícia Froelich
Seguindo a linha de escrever a respeito de vivências próprias, trago este tema quente: mulheres em cargos de gestão- seus respectivos desafios e potências. Ocorre que no último dia 17 assumi um cargo profissional desta natureza e estou me apropriando do processo, sendo que refletir faz parte disto. Adicionalmente, presto consultoria acadêmica, e no momento estou mentorando uma mestranda que versa acerca das mulheres em cargos de alta gestão nas universidades federais, no escopo de sua pesquisa dissertativa. Portanto, estou imersa no tema, empírica e teoricamente.
Todo dia preciso substituir pensamentos sabotadores por ‘estou dando meu melhor e fui escolhida por competência’. Sabemos que boa parcela da sociedade não incentiva mulheres gerindo espaços, é mais ‘natural’ mandatórios masculinos. A síndrome da impostora acompanha boa parte das mulheres, já ouvi insegurança de muitas, em variadas profissões e cargos, sobretudo daquelas com mais alto grau acadêmico. Como a estrutura de organização social patrocina nossas inseguranças profissionais? A competitividade do capitalismo corrobora para tal? Você já atuou em cargo de gestão/chefia/administração; como se sentiu? Qual sua maior meta profissional; o que te impede de chegar lá?
Pense numa mulher que trabalha em cargo de gestão/coordenação e liste mentalmente uma qualidade que você admira nela; agora faça o exercício de confabular sobre um homem em situação similar. Foi mais rápido pensar em qual gênero? Uma mulher gestionando precisa adquirir características masculinas para obter respeito? Há mais homens ou mulheres em cargos decisórios; por quê? Se a mulher vivencia o medo ou se sente uma fraude ao ocupar cargos desta natureza, trata-se de um traço individual ou incute sob ela peso social? Você já refletiu sobre esse tema antes?

Como de praxe, não venho com todas as respostas. O substrato basilar da ‘feminices’ é alimentar partes de nós que padecem de fomes: reflexivas, emocionais, culturais e afetivas. A ideia é trazer vulnerabilidades da escritora demonstrando assim que todas/os têm fragilidades e questões para burilar. Não estou aqui para dizer que sou f#### e empoderada fazendo com que você se sinta um lixo, já tem muito disso nas mídias sociais. Pelo contrário, eis-me aqui para escancarar problemas que tem cunho individual e social; promover ruminações; arranhar a estrutura patriarcal; ebulir autoamor apesar das controvérsias. Não é fácil se mostrar vulnerável e limitada, mas certamente isto nos conecta pois é o suprassumo da nossa humanidade!
Sobre mulheres em cargos de gestão eu sei que elas são questionadas e precisam provar sua competência repetidamente, inclusive para si mesmas. Outrossim, mulheres gestoras são potência pura, se nutrem de uma ancestralidade pujante. Eu sou a primeira da família a assumir um posto do feitio em relevo, isto é um privilégio e concomitantemente um desafio. Estou horando a caminhada, pronta para os tropeços e propulsões. Independente do lugar ou empresa, estamos no mundo para aprender, este último, aliás, fazemos até nosso último suspiro! Agradeço à todas as mulheres do meu entorno que me fortalecem com suas respectivas expertises (profissionais e aquém)!
Em tempo, também gostaria de abrir um parêntese nesta coluna, pois acho que não conseguiria escrever uma inteiramente sobre isso. No último dia 27 fez 10 anos da tragédia na Boate Kiss de Santa Maria-RS. Eu estava na cidade naquela ocasião (fiz minha graduação lá) e conheci algumas vítimas, inclusive quase fui para a derradeira festa, é um horror lembrar disto e seus contornos. Mas, faço essa singela menção do passado em honra aos que partiram precocemente e para que não se repita! As famílias enlutadas ainda aguardam por justiça. A dor nunca passará!
A Netflix lançou uma minissérie que reconstitui a dilacerante e mortal tragédia, ainda estou me fortalecendo psicologicamente para assisti-la, pois todos/as que estiveram naquela cidade, aquela noite, tiveram partículas que padeceram em consórcio. Li[1] que pais/mães e apoiadores(as) vão processar o streaming sobredito, requerendo que uma parcela do rendimento seja remetida às vítimas, aos/as sobreviventes e à fundação do memorial. O que na minha opinião é justíssimo. Força e luz para todos/as nós!
Novamente agradeço a sua leitura, sei que tenho a melhor audiência. Você já sabe, mas convém repetir: sua presença é bem quista aqui! As mensagens desta coluna são: aceite e experiencie os cargos de chefia/gestão; você é capaz; trate suas questões com psicoterapia mas pondere em consonância sobre o quantum social imbuído nelas; aproveite(mos) a brevidade de sua(nossa) existência terrena. Nos encontramos na próxima semana?
[1] https://gauchazh.clicrbs.com.br/seguranca/noticia/2023/01/grupo-de-familiares-de-vitimas-da-kiss-pretende-processar-netflix-por-serie-sobre-a-tragedia-cldg5s6uq003i014sxlbxjc8j.html