Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

Revigorado nas urnas, lulismo se depara com o pós-Lula

Por Reinaldo Glioche

A vitória histórica de Luiz Inácio Lula da Silva, reeleito neste domingo (25) para seu quarto mandato presidencial, deixa lições importantes e ajuda a explicar o estado de perplexidade que tomou conta da política brasileira. Lula chegou ao segundo turno diante da perspectiva de um fim melancólico para sua trajetória: perder a última eleição presidencial de sua carreira para um candidato considerado fraco, Flávio Bolsonaro. Mas, como já sugeriam a ciência política e a própria história eleitoral do país, se havia alguém capaz de virar uma eleição presidencial no Brasil, esse alguém era Lula. E assim foi feito.

Depois de uma intensa mobilização digital e nas ruas, impulsionada por figuras como Guilherme Boulos e André Janones, Lula protagonizou uma virada que será objeto de análise por anos, tanto no Brasil quanto no exterior. Partindo de um déficit de 2,5 milhões de votos, o presidente terminou a disputa com uma vantagem de 4,5 milhões sobre Flávio Bolsonaro. Conquistou 10,3 milhões de votos entre o primeiro e o segundo turnos, ampliou sua votação em todos os estados e conseguiu reduzir a abstenção em três pontos percentuais. Mais de 2,5 milhões de eleitores que não haviam comparecido às urnas voltaram para votar, enquanto os índices de votos brancos e nulos também diminuíram. Tudo isso em apenas três semanas.

É preciso reconhecer, naturalmente, que parte expressiva desse resultado decorreu da campanha do medo promovida pelo PT — embora o partido não tenha sido o único a recorrer a esse expediente, tão antigo quanto a própria disputa política organizada. O petismo foi especialmente eficiente em associar Flávio Bolsonaro ao risco de uma ameaça à democracia, vincular o bolsonarismo à submissão às ambições norte-americanas, relacionar a violência política à essência desse movimento e explorar o suposto despreparo do candidato para exercer a Presidência. As estratégias se provaram extremamente eficazes.

O resultado foi uma reviravolta que separa o potencial fim do lulismo de seu renascimento. Ao longo de oito eleições presidenciais, Lula acumulou mais de 500 milhões de votos. Em 2026, estabeleceu uma nova marca pessoal, chegando a 64 milhões de votos no segundo turno e superando os 60 milhões obtidos em 2022. Mais do que uma vitória eleitoral, o resultado representa a reafirmação de sua capacidade de mobilização e de sobrevivência política, mesmo quando sua trajetória parecia próxima do esgotamento.

Agência Brasil

Em contrapartida, o bolsonarismo, que pode ser entendido como uma espécie de costela de Adão do lulismo, não sai ferido de morte das urnas. O PL conquistou uma bancada histórica no Congresso, tornou-se a maior força na Câmara dos Deputados e consolidou sua influência no Senado. O campo conservador também garantiu governos estaduais importantes. A força parlamentar e territorial da direita, portanto, permanece incontestável.

Ainda assim, a segunda derrota consecutiva para Lula em uma eleição presidencial — e, sobretudo, a maneira como ela aconteceu — coloca sob perspectiva a capacidade de Jair Bolsonaro de continuar exercendo influência determinante sobre o conjunto da direita brasileira. A questão que se impõe agora é quem herdará seu espólio político.

Nesse cenário, Michelle Bolsonaro aparece bem posicionada. Eleita senadora com amplo apoio feminino e boa penetração no eleitorado evangélico, ela tem condições de dialogar com setores que desejam preservar a proximidade com o bolsonarismo, mas ampliar seu alcance para além do núcleo mais fiel ao ex-presidente. O fato de não ser uma Bolsonaro de sangue, contudo, representa uma questão política relevante, como a própria escolha de Flávio para disputar a Presidência demonstrou ser para Jair Bolsonaro.

Michelle pode, assim, funcionar como uma alternativa de continuidade com potencial de expansão. Sua força dependerá da capacidade de converter capital eleitoral e identificação simbólica em liderança efetiva sobre um movimento cuja identidade ainda está profundamente vinculada à figura de seu progenitor.

De outro lado, Tarcísio de Freitas surge como sucessor natural para uma parcela mais tradicional da direita. Com gestão bem avaliada, reeleito em São Paulo no primeiro turno com mais de 60% dos votos e identificado com as expectativas do mercado financeiro, o governador reúne atributos para liderar um campo conservador interessado em combinar liberalismo econômico, pragmatismo político e menor intransigência nos costumes.

Tarcísio, porém, terá de enfrentar um dilema existencial: afastar-se de Jair Bolsonaro para capitanear uma direita mais tradicional ou subordinar seu projeto político às decisões do ex-presidente sobre o futuro do movimento. A primeira opção pode ampliar seu eleitorado, mas cobra o preço de uma ruptura com parte da base que sustenta sua projeção nacional. A segunda preserva sua relação com o bolsonarismo, mas limita sua autonomia e pode comprometer sua capacidade de atrair eleitores para além desse campo.

A disputa pela herança política de Bolsonaro deve, portanto, dominar parte importante dos próximos anos. Mas a sucessão não será uma questão exclusiva da direita. O lulismo revigorado também precisará encontrar um herdeiro.

Foto: Montagem sobre reprodução

Lula deve olhar para o Nordeste. Embora figuras como Guilherme Boulos e Fernando Haddad apareçam entre os nomes potencialmente capazes de dar continuidade ao projeto petista, ambos enfrentam um desafio de capilaridade territorial. A força eleitoral de lideranças nordestinas como Camilo Santana e Rafael Fonteles está associada a uma identificação regional que o lulismo historicamente soube transformar em capital político nacional.

É mais fácil uma liderança nordestina se tornar conhecida no Sudeste do que uma figura do Sudeste conquistar o mesmo grau de reconhecimento no Nordeste. Essa assimetria tem implicações eleitorais concretas e deverá pesar no cálculo de Lula. Um sucessor com raízes e projeção na região onde o petismo encontra parte de sua sustentação mais consistente teria condições de preservar a base histórica do partido e, ao mesmo tempo, construir uma identidade própria.

Há também a dimensão geracional. Aos 80 anos, Lula não pode ignorar a necessidade de preparar a continuidade de seu projeto político. O desafio não é apenas encontrar alguém capaz de herdar seu eleitorado, mas identificar uma liderança que consiga manter a coesão do campo progressista quando sua presença já não for o principal elemento de articulação desse universo.

A vitória de 2026, portanto, resolve uma disputa imediata, mas abre outras duas: a sucessão no bolsonarismo e a continuidade do lulismo. Em ambos os casos, o que está em jogo é a capacidade de transformar movimentos políticos fortemente personalizados em projetos que sobrevivam a seus líderes.

A premência da governabilidade

No curto prazo, entretanto, Lula terá de lidar com problemas menos abstratos. Seu quarto mandato começa sob a perspectiva de um Congresso de perfil fortemente conservador, em um ambiente de crescente desconfiança do mercado financeiro e com a austeridade fiscal no centro das pressões sobre o governo. A vitória nas urnas não elimina essas restrições; ao contrário, torna ainda mais evidente o contraste entre a força eleitoral do presidente e os limites institucionais de sua capacidade de governar.

Não será um mandato fácil. A tendência é que Lula precise operar em regime de contenção, negociando com um Legislativo pouco alinhado a seu programa e administrando expectativas econômicas que dificilmente serão atendidas sem concessões. Ao mesmo tempo, o potencial para escândalos de corrupção e crises institucionais permanecerá elevado, especialmente diante da possibilidade de embates significativos entre o Congresso e o Supremo Tribunal Federal.

A eleição de 2026 mostrou que Lula ainda é capaz de surpreender, mobilizar e vencer quando parece estar politicamente encurralado. Mas a ressurreição eleitoral do presidente não deve ser confundida com a recuperação irrestrita de sua capacidade de governar. A vitória devolve ao lulismo a centralidade que parecia ameaçada, mas não resolve seu problema de sucessão nem neutraliza os obstáculos institucionais que o aguardam.

A direita, por sua vez, sai da eleição com força parlamentar, mas sem uma resposta definitiva para a pergunta que importa: quem será capaz de herdar o bolsonarismo sem permanecer prisioneiro de Jair Bolsonaro?

É nessa tensão entre a longevidade de Lula, a disputa pela herança de Bolsonaro e as limitações de um sistema político cada vez mais fragmentado que se desenhará o próximo capítulo da política brasileira.

Isso pode te interessar

Questões Políticas

Lulismo resiste e se junta ao bolsonarismo em crise existencial

Rumos

Para Sacha Baron Cohen, rir do poder nunca foi tão necessário

Ator britânico alerta para o avanço do extremismo, a disseminação de teorias conspiratórias e os riscos das redes sociais

Streaming

Netflix perde engajamento, troca comando de conteúdo e vê ações caírem 29%

Empresa tenta reagir à desaceleração da receita e à concorrência de serviços gratuitos como o YouTube

Cinema

Gregg Araki transforma sexo em sintoma de uma sociedade emocionalmente doente

Em “I Want Your Sex”, cineasta retoma suas provocações sobre desejo e identidade

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.