Redação Culturize-se
O artigo do ator e comediante Sacha Baron Cohen na Time parte de sua trajetória com personagens como Borat e Ali G para argumentar que o humor continua sendo uma ferramenta de crítica política. Em meio à polarização, ao avanço do extremismo e às pressões sobre a liberdade de expressão nos Estados Unidos, Cohen sustenta que rir do poder é uma forma de expor preconceitos, desmontar discursos autoritários e defender a democracia.
O humor como instrumento de resistência política
A defesa da sátira feita por Sacha Baron Cohen na revista Time não é apenas uma reflexão sobre os limites da comédia. Publicado em 20 de outubro, às vésperas da estreia de “Ali G: Who Iz I?”, novo filme do ator britânico, o artigo funciona também como uma resposta às críticas dirigidas a um de seus personagens mais controversos e como um alerta sobre o ambiente político contemporâneo. Cohen argumenta que o preconceito, a intolerância e a desinformação que suas criações costumavam revelar não desapareceram. Ao contrário, ganharam escala e passaram a circular com mais facilidade nas redes sociais e por meio da inteligência artificial.

Para sustentar sua tese, o comediante recorre à própria formação artística. Aos oito anos, conta, assistiu escondido dos pais a “A Vida de Brian”, do grupo britânico Monty Python, experiência que o apresentou à capacidade do humor de confrontar crenças religiosas e disputas políticas. Mais tarde, estudou com o francês Philippe Gaulier, que lhe apresentou a figura do bouffon, uma espécie de bufão cuja função histórica seria ridicularizar os poderosos. Cohen define essa tradição como “o humor dos despossuídos”, uma forma de escárnio capaz de atacar injustiças sistêmicas.
A sátira, nessa perspectiva, não existe para preservar sensibilidades, mas para expor contradições. O autor lembra que dramaturgos e comediantes foram frequentemente condenados por sua irreverência, de Aristófanes, na Grécia Antiga, a Lenny Bruce, nos Estados Unidos do século 20. A reação indignada, argumenta, não significa necessariamente que a piada fracassou. Pode ser justamente um sinal de que ela atingiu um ponto sensível.
É nesse contexto que Cohen procura explicar a lógica de seus personagens. Borat, o jornalista fictício do Cazaquistão, é concebido para revelar antissemitismo, xenofobia, machismo e racismo. Erran Morad, um caricatural agente israelense, expõe a islamofobia e os comportamentos absurdos provocados pelo medo do diferente. Já Ali G, um personagem branco que imita a cultura hip-hop e se apresenta como especialista em assuntos que não compreende, deveria desmascarar tanto sua própria ignorância quanto a credulidade de autoridades e entrevistados que o levam a sério.
“Eu sempre concebi meus personagens e minha comédia como veículos para expor o preconceito, a parcialidade e a estupidez”, escreve. Ele reconhece, porém, que nem todos enxergam suas intenções dessa maneira. A ressalva é importante porque a volta de Ali G também reacendeu críticas sobre apropriação cultural e estereótipos raciais. Cohen insiste que a piada não é dirigida à cultura negra que o personagem imita, mas ao próprio impostor e às figuras do establishment predominantemente branco que não percebem sua farsa.
A defesa ganha contornos políticos mais explícitos quando o ator compara o mundo atual àquele em que seus personagens surgiram. Há duas décadas, afirma, bastavam alguns minutos de conversa para que certas pessoas revelassem preconceitos que dificilmente admitiriam em público. Hoje, segundo ele, ideias antes dissimuladas alcançaram o debate político convencional. O discurso antissemita, a hostilidade contra imigrantes, a misoginia e a intolerância religiosa são apresentados como manifestações de uma deterioração mais ampla da convivência democrática.

Cohen também aponta o papel das plataformas digitais na disseminação dessas ideias. As redes sociais, escreve, constituem uma gigantesca máquina de propaganda, agora acompanhada pela inteligência artificial. O resultado é um ambiente em que teorias conspiratórias e informações falsas desafiam a própria possibilidade de estabelecer uma realidade compartilhada. Nesse cenário, a ignorância pode se apresentar como conhecimento, enquanto a mentira adquire aparência de verdade.
O comediante não restringe sua preocupação à direita. Embora identifique o avanço do autoritarismo de direita, ele também condena o extremismo à esquerda e a crescente tolerância à violência política. Sua crítica se dirige à disposição de justificar agressões em nome de uma causa considerada moralmente superior. Para Cohen, essa lógica representa uma ameaça à democracia independentemente da identidade ideológica de quem a adota.
O texto também associa a sátira à resistência contra governos autoritários. Cohen cita “O Grande Ditador”, de Charles Chaplin, a sátira nuclear de “Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, e a trajetória do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, que ganhou notoriedade ao interpretar um professor transformado em chefe de Estado na série “Servo do Povo”. O humor, nesses exemplos, não apenas ridiculariza o poder: pode tornar suas contradições visíveis e enfraquecer sua legitimidade.
Ao defender a volta de Ali G, Cohen resume sua justificativa: “O fato de Ali G estar ultrapassado e ser problemático é justamente a razão pela qual o ressuscitei”. Para ele, o personagem retorna a um mundo em que os preconceitos que deveria expor se agravaram, alimentados por novas tecnologias e pela radicalização política. A sátira não resolverá sozinha esses problemas, admite, mas pode soar o alarme e estimular a reação pública.
O artigo termina com um apelo que ultrapassa o campo da comédia. Cohen defende a responsabilização das empresas de tecnologia pela circulação de mentiras, teorias conspiratórias e discursos de ódio, além da mobilização dos cidadãos contra a desinformação. A sobrevivência das democracias pluralistas, argumenta, depende da capacidade de interromper esse ciclo e conviver com as diferenças.
A conclusão recupera uma palavra associada a Ali G: Respect, ou respeito. A ironia é que Cohen chega a esse princípio por meio de uma defesa do humor ofensivo. Seu argumento não é que toda provocação seja legítima ou que a intenção do comediante encerre a discussão sobre seus efeitos. É que, sem liberdade para desafiar convenções e constranger os poderosos, a sociedade corre o risco de confundir respeito com silêncio. E, diante do autoritarismo, o silêncio pode ser mais perigoso do que a piada.