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Olivia Wilde brilha na volta provocadora de Gregg Araki ao cinema

Por Reinaldo Glioche

Há cineastas que encontram no sexo um instrumento de transgressão. Gregg Araki, um dos nomes mais provocadores do cinema queer norte-americano, sempre enxergou nele algo além da expressão do desejo: uma maneira de investigar as contradições de uma geração, os impasses da identidade e as transformações das relações sociais. Em “I Want Your Sex”, seu primeiro longa-metragem em mais de uma década, o diretor retoma esse território com humor, erotismo e uma dose considerável de cinismo. O resultado é um filme que parece falar sobre sexo, mas está particularmente interessado naquilo que as pessoas tentam esconder de si mesmas.

A trama acompanha Elliot (Cooper Hoffman), um jovem que consegue trabalhar com Erika Tracy (Olivia Wilde), artista renomada que faz da sexualidade matéria-prima de suas performances. Ela o escolhe para participar de uma dinâmica de submissão e controle que, inicialmente, parece representar a realização das fantasias do rapaz. A experiência, porém, logo ultrapassa os limites de um jogo erótico. Elliot se torna obcecado por Erika, enquanto a relação entre os dois expõe uma diferença fundamental entre aquilo que ele imagina desejar e aquilo de que realmente necessita.

É nesse descompasso que Araki encontra seu principal objeto de investigação. Elliot não percebe que está à procura de conexão emocional. Acredita estar diante de uma oportunidade de experimentar, de romper suas inibições e de se aproximar de uma mulher que encarna uma liberdade sexual que ele próprio não consegue compreender inteiramente. Quando começa a reconhecer suas carências, já está enredado em uma situação que não necessariamente lhe oferece conforto ou segurança.

O diretor demonstra particular perspicácia ao acompanhar esse processo sem transformar o protagonista em uma figura exemplar de amadurecimento. Em vez de organizar a narrativa como uma trajetória convencional de autodescoberta, Araki prefere observar como o reconhecimento das próprias fragilidades não implica, necessariamente, disposição ou capacidade para corrigi-las. Seus personagens identificam alguns de seus problemas, mas continuam reproduzindo comportamentos que os mantêm presos a eles.

Essa é uma das ideias mais interessantes de “I Want Your Sex”. A liberdade individual, tão celebrada no imaginário contemporâneo, não elimina as inseguranças nem garante relações mais saudáveis. Em determinados contextos, pode até oferecer novos mecanismos para disfarçá-las. O sexo se converte, então, em escudo contra a vulnerabilidade: uma atividade na qual os personagens procuram exercer controle sobre o outro enquanto tentam evitar o confronto com as próprias necessidades afetivas.

Araki não apresenta essa dinâmica como um problema exclusivo de Elliot. A disfuncionalidade atravessa o universo do filme, que se interessa também pela cultura da hiperexposição e pela maneira como a sexualidade se transforma em linguagem pública, performance e instrumento de afirmação identitária. Erika faz da intimidade uma manifestação artística. Seu corpo, suas práticas e suas escolhas integram a construção de uma persona que parece existir em permanente estado de exibição. Mas a desenvoltura com que ela administra a própria imagem não significa que esteja imune às fragilidades que procura manter sob controle.

É nesse ponto que a personagem ganha complexidade. Erika não é apenas uma mulher sexualmente emancipada que desafia convenções. É também alguém cuja autoconfiança depende de uma construção cuidadosamente administrada. A distância entre a figura pública e a intimidade que ela deixa transparecer confere à atuação de Olivia Wilde uma camada adicional de interesse.

A atriz compreende que interpretar uma personagem assim exige mais do que disposição para o erotismo ou para a exposição física. É preciso transmitir a vulnerabilidade de alguém que se esforça continuamente para não parecer vulnerável. Wilde domina esse equilíbrio com notável precisão. Sua presença física, a maneira como ocupa os espaços e a capacidade de preencher os silêncios revelam emoções que Erika talvez jamais admitisse em voz alta.

Depois de “O Convite”, filme que também dirigiu, Wilde consolida aqui uma presença particularmente forte em 2026. Sua atuação combina provocação e contenção, sem reduzir a personagem a uma coleção de gestos calculados para escandalizar. Há inteligência na maneira como ela manipula a percepção do espectador: Erika pode parecer inteiramente senhora de si em um momento e deixar entrever, no seguinte, as fissuras de uma personalidade que depende da própria imagem para sustentar sua autoridade.

Cooper Hoffman, por sua vez, encontra na crescente obsessão de Elliot uma oportunidade para trabalhar a insegurança sem recorrer a uma ingenuidade excessivamente simplificadora. O ator acompanha o personagem em seu progressivo enredamento, tornando perceptível a diferença entre a experiência que ele acredita estar vivendo e aquela que efetivamente o transforma. Há algo de inquietante em sua composição, sobretudo quando a necessidade de aprovação passa a se confundir com desejo.

O elenco de apoio também contribui para dar espessura a esse universo. Mason Gooding, como o amigo gay de Elliot, funciona como um esteio emocional para o protagonista, oferecendo uma perspectiva externa sobre suas escolhas. A dinâmica entre os personagens ajuda a impedir que o filme se restrinja ao confronto entre Erika e Elliot. Ainda assim, é na relação central que Araki concentra suas provocações mais incisivas.

O diretor, conhecido por trabalhos como “Mistérios da Carne” e “Geração Maldita”, mantém aqui sua disposição para desconcertar o público. A combinação de cores exuberantes, situações surreais e humor irreverente impede que o drama se instale em um registro exclusivamente sombrio. A comicidade, aliás, é parte essencial do projeto. Ao expor as contradições de seus personagens, Araki não procura condená-los, mas revelar o ridículo que pode existir em suas tentativas de controlar a própria narrativa.

Essa estratégia se estende à representação da arte contemporânea. Erika é uma artista reconhecida, mas o filme sugere um ambiente em que a provocação corre o risco de se tornar um fim em si mesma. O sexo é simultaneamente experiência, mercadoria e linguagem artística. A transgressão, por sua vez, pode ser absorvida pelo sistema que pretendia desafiar, transformando-se em mais um elemento de uma identidade cuidadosamente comercializada.

Araki é perspicaz ao explorar essa contradição, embora nem todas as suas provocações tenham a mesma força. Em alguns momentos, a insistência no deboche ameaça simplificar questões que o filme identifica com maior complexidade do que consegue desenvolver. A crítica ao vazio da arte contemporânea, por exemplo, ganha força quando emerge das contradições de Erika, mas perde precisão quando parece depender apenas do caráter extravagante de suas performances.

Fotos: Divulgação

Ainda assim, “I Want Your Sex” encontra sua maior qualidade na recusa de oferecer uma evolução moral confortável. Seus personagens não necessariamente amadurecem, mesmo quando confrontados com as consequências de suas escolhas. O reconhecimento dos próprios problemas não os torna automaticamente melhores. Eles continuam sujeitos às mesmas compulsões, aos mesmos mecanismos de defesa e à mesma incapacidade de estabelecer relações que não sejam atravessadas por disputas de poder.

Essa recusa é também o que torna o filme mais interessante do que uma provocação sobre os costumes sexuais contemporâneos. O sexo é o dispositivo por meio do qual Araki examina uma sociedade que estimula a exposição, mas nem sempre oferece condições para a intimidade; que celebra a liberdade, mas não ensina necessariamente a lidar com a vulnerabilidade que ela exige.

O diagnóstico é pessimista e, em certa medida, cínico. Araki parece desconfiar da capacidade de seus personagens de escapar dos comportamentos que os aprisionam. Mas há algo de libertador nessa perspectiva: ao desmontar as fantasias de controle e autossuficiência, o filme expõe o quanto elas podem ser frágeis.

“I Want Your Sex” não é exatamente um filme sobre sexo. É um filme sobre o que fazemos com ele quando não sabemos lidar com nossos desejos, nossas carências e nossa necessidade de sermos vistos. Mais de uma década depois de seu último longa, Gregg Araki retorna sem abandonar o espírito provocador que caracteriza sua obra. Nem sempre acerta o alvo com a mesma precisão, mas encontra em Olivia Wilde uma intérprete capaz de dar corpo e ambiguidade às suas inquietações. O resultado é uma sátira mordaz sobre uma sociedade que aprendeu a exibir quase tudo — menos a própria vulnerabilidade.

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