Pesquisar
Feche esta caixa de pesquisa.

"Rosebush Pruning" transforma a frivolidade dos super-ricos em uma farsa sangrenta

Por Reinaldo Glioche

A farsa é um dos expedientes mais interessantes para construir uma crítica contundente. Em “Rosebush Pruning”, esse recurso funciona esplendidamente. Impressiona a maneira como Karim Ainoüz constrói um universo peculiar, um microcosmo cuidadosamente delimitado, apenas para demoli-lo diante dos olhos do espectador.

O filme conta com um elenco extraordinário, que reúne Callum Turner, Jamie Bell, Tracy Letts, Elle Fanning, Riley Keough, Pamela Anderson e a espanhola Elena Anaya. São poucos os atores necessários para dar vida a esse mundo, quase inteiramente circunscrito à propriedade rural de uma família abastada na Espanha. Além do núcleo principal, apenas dois ou três personagens aparecem brevemente em cena. Essa economia de figuras reforça a sensação de clausura e permite que o filme concentre sua atenção nas relações deterioradas que sustentam aquele ambiente.

Pamela Anderson em cena do filme | Fotos: Divulgação

“Rosebush Pruning” é um petardo contra a frivolidade dos super-ricos. Na mansão, quatro filhos vivem sob a influência de um pai cego e envelhecido. A mãe está morta, e os herdeiros parecem condenados a uma espécie de infância permanente, incapazes de desenvolver autonomia emocional ou moral. É Edward, um dos filhos do meio, vivido por Callum Turner, quem conduz o espectador por esse universo disfuncional. Ressentido com a própria incapacidade de desejar, ele funciona como uma porta de entrada para a dinâmica desalmada da família.

À medida que a narrativa avança, os esqueletos começam a sair do armário. Inveja, ganância e perdição não são apenas características individuais: alimentam-se mutuamente e ajudam a perpetuar a degradação daquele núcleo familiar. Jack, o primogênito, interpretado por Jamie Bell, enfrenta o dilema de se casar com Martha, personagem de Elle Fanning, e se afastar definitivamente da convivência familiar. Único dos irmãos que já não mora na propriedade, ele se torna o centro de uma tensão que desencadeia uma sucessão de situações violentas. Antecipar os motivos dessa escalada seria comprometer parte importante da experiência que o filme oferece.

O diretor observa esse microcosmo por meio de uma combinação de erotismo e sangue. São duas formas sedutoras e incisivas de expor a intimidade daqueles personagens, revelando o que há de grotesco sob a superfície de uma existência materialmente privilegiada. A câmera alterna entre uma consciência aguda das contradições que pretende explorar e um deboche sorrateiro, por vezes quase imperceptível. É uma escolha deliberada, embora nem sempre bem-sucedida. Em alguns momentos, o filme derrapa, como se sua disposição para o excesso ameaçasse a precisão da própria crítica. Quando encontra o tom, porém, alcança uma potência considerável.

O cineasta compreende que a riqueza superlativa, o tédio que pode acompanhá-la e as lacunas emocionais que ela não consegue preencher são capazes de comprometer o discernimento moral. Essa corrosão atravessa as decisões de praticamente todos os personagens, inclusive daqueles pelos quais somos levados a desenvolver alguma simpatia. A perversidade do filme está justamente em não oferecer ao espectador uma saída confortável: as deformações daquela família são particulares, mas os mecanismos de inveja, ressentimento e autopreservação que as alimentam não são necessariamente exclusivos dos muito ricos.

“Rosebush Pruning” não teme fazer escolhas ousadas nem retirar a audiência de sua zona de conforto. Ao contrário, aposta na possibilidade de que a exposição de uma fauna tão degradada produza uma espécie de catarse: diante de personagens que parecem ter perdido qualquer referência ética, o espectador encontra algum alívio na percepção de sua distância em relação àquele universo.

Trata-se de um trabalho vigoroso, que nem sempre sustenta a mesma altivez e cuja acidez ocasionalmente se confunde com o gosto pelo próprio excesso. Ainda assim, a ousadia formal e a contundência de sua sátira merecem crédito. Ao transformar o privilégio em matéria de farsa e a decadência em espetáculo, “Rosebush Pruning” encontra imagens perturbadoras para uma crítica que não precisa de grandes discursos para ser compreendida.

Isso pode te interessar

Cinema

Gregg Araki transforma sexo em sintoma de uma sociedade emocionalmente doente

Em “I Want Your Sex”, cineasta retoma suas provocações sobre desejo e identidade

Música

Do sintetizador ao crash: synth-pop e hyperpop são parentes ou inimigos?

Play

Paris Filmes distribuirá “O Último Dia”, releitura de “Mrs. Dalloway” com Wagner Moura

Literatura

Arapiraca recebe o Festival Arte da Palavra em novembro

Newsletter Gratuita

Tenha o melhor da cultura na palma da sua mão. Assine a newsletter gratuita de Culturize-se. Todos os dias pela manhã na sua caixa de e-mail.