Redação Culturize-se
Durante quase duas décadas, a futurista brasileira Beia Carvalho ajudou empresas, governos e organizações a antecipar tendências e imaginar os desafios das próximas décadas. Aos 69 anos, decidiu inverter a lógica que orientou sua carreira: em vez de tentar prever o futuro, resolveu experimentar novas possibilidades para a própria vida. O resultado é “#FUI – Morar Sozinha na Europa aos 69 anos”.
A publicação parte de uma experiência pessoal para abordar uma transformação demográfica e social que ganha importância no século XXI: a longevidade. Aos 72 anos, Beia propõe uma reflexão sobre o significado de viver mais e sobre as oportunidades que surgem quando a idade deixa de ser vista como uma etapa de encerramento.
“#FUI não é um manual sobre minhas viagens, tampouco é um guia de viagem ou de autoajuda. Até porque desconfio das respostas corretíssimas para tudo e todos”, afirma a autora. “Acima de tudo, é um livro sobre a estranha possibilidade de viver outras vidas nessa vida. E de se perguntar: na sua vida cabem outras vidas?”
Com 336 páginas, a obra nasceu no ambiente digital. Durante dois anos, Beia compartilhou pelo WhatsApp relatos de sua decisão de morar sozinha em Lisboa, construindo uma comunidade de mais de dois mil leitores. A troca cotidiana de mensagens transformou a experiência individual em uma conversa coletiva sobre medos, descobertas, escolhas e recomeços.
Agora, o projeto ganha formato editorial sem abandonar sua origem. O livro reúne textos, mais de 160 fotografias e 79 vídeos acessíveis por QR Codes, combinando narrativa autobiográfica e recursos audiovisuais. A proposta é aproximar a leitura de uma experiência compartilhada, na qual a trajetória da autora funciona como ponto de partida para questões que ultrapassam sua história particular.
O lançamento também dialoga com uma mudança na maneira como a sociedade compreende o envelhecimento. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a proporção da população mundial com mais de 60 anos deverá passar de 12% em 2015 para 22% em 2050. O aumento da longevidade impõe desafios aos sistemas de saúde e previdência, mas também exige repensar o trabalho, os vínculos sociais e os projetos individuais.

Para Beia, viver mais não significa necessariamente prolongar um roteiro já conhecido. O modelo tradicional — estudar, construir uma carreira, formar uma família e se aposentar — foi concebido em um contexto no qual a expectativa de vida era menor. Com a ampliação do tempo de vida, novas etapas podem surgir, acompanhadas da possibilidade de mudar de profissão, cidade, rotina ou prioridades.
Nesse cenário, a experiência acumulada ao longo dos anos ganha outro significado. Inspirada pelas discussões sobre capital econômico, social e cultural e pelos estudos contemporâneos da longevidade, a autora propõe pensar a vivência como um patrimônio construído por escolhas, erros, acertos, perdas, afetos e recomeços. Diferentemente de bens materiais, esse repertório não pode ser adquirido de imediato nem reproduzido por algoritmos: depende do que cada pessoa vive e aprende.
A reflexão encontra particular ressonância em uma época marcada pelo fascínio com as tecnologias e as previsões sobre inteligência artificial, biotecnologia e mudanças climáticas. Enquanto empresas e governos procuram antecipar transformações, a longevidade coloca uma questão menos tecnológica e igualmente decisiva: o que fazer com os anos conquistados?
Em “#FUI”, a mudança para Lisboa não aparece apenas como uma viagem, mas como uma experiência de autonomia e reinvenção. Beia Carvalho amplia a discussão sobre envelhecimento para além das limitações associadas à idade. A pergunta que fica não é apenas quanto tempo ainda temos pela frente, mas quantas possibilidades de vida cabem nesse tempo.