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Festival do Rio 2026 transforma a cidade em vitrine do cinema mundial

Redação Culturize-se

Entre os dias 1º e 11 de outubro, o Rio de Janeiro volta a ser uma espécie de capital cinematográfica do país. A 28ª edição do Festival do Rio chega com uma programação que deixa evidente uma vocação histórica do evento: funcionar como ponte entre o cinema que circula pelos grandes festivais internacionais e o público brasileiro. São mais de 100 títulos que passaram por eventos como Cannes, Berlim, Veneza, Sundance, Toronto e San Sebastián, além de uma expressiva seleção de filmes nacionais.

A abertura, no dia 1º de outubro, no tradicional Cine Odeon – Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, dá o tom da edição. O escolhido é “A Bola Preta” (La Bola Negra), dos espanhóis Javier Calvo e Javier Ambrossi, conhecidos como “Los Javis”. O filme chega ao Rio depois de uma passagem particularmente celebrada por Cannes, onde recebeu o prêmio de Melhor Direção e foi aplaudido durante 20 minutos. Produzido pela Netflix e distribuído no Brasil pela Paris Filmes, o longa é uma das apostas internacionais que desembarcam no festival já cercadas de expectativa.

Inspirado em uma obra inacabada de Federico García Lorca e na peça La piedra oscura, de Alberto Conejero, “A Bola Preta” acompanha três homens gays em momentos diferentes da história espanhola — 1932, 1937 e 2017. Desejo, memória, identidade, dor e legado atravessam as três histórias, conectadas por uma narrativa que pretende transformar experiências individuais em uma espécie de panorama sobre o tempo e a permanência de determinadas feridas. Filmado em 35mm, o longa reúne ainda Guitarricadelafuente, Miguel Bernardeau, Carlos González, Milo Quifes, Penélope Cruz e Glenn Close.

Mas o Festival do Rio não vive apenas dos nomes que chegam com o selo de Cannes ou Veneza. Uma das características mais interessantes desta edição está justamente no modo como produções brasileiras e internacionais dividem o mesmo espaço. É o caso de “Jardim dos Silêncios”, estreia na ficção do documentarista baiano Henrique Dantas. Protagonizado por Fabrício Boliveira, o filme acompanha Tuã, médico oncologista que deixou o Brasil ainda criança durante a ditadura militar e retorna ao país depois da morte da mãe, quando descobre que a avó está com câncer terminal.

Foto: Divulgação/Paris Filmes

Há uma dimensão pessoal especialmente forte nesse projeto. Dantas perdeu 14 pessoas de seu círculo afetivo em apenas quatro meses, em 2012, experiência que o levou a pensar sobre o silêncio produzido pelo luto e sobre as diferentes maneiras de reagir à morte. O filme nasce desse incômodo e coloca um personagem diante da necessidade de retornar não apenas a um país, mas à própria memória. Filmado entre Ilhéus e Orvieto, na Itália, “Jardim dos Silêncios” teve sua première mundial no American Black Film Festival, em Miami, antes de chegar ao Rio.

Outra presença brasileira que chama atenção é Carol Duarte. Dois anos depois de conquistar o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante no Festival do Rio por “Malu”, ela retorna ao evento em duas produções. Em “O Segredo de Eva”, longa italiano dirigido por Emanuela Rossi, assume pela primeira vez o protagonismo de uma produção estrangeira. A atriz interpreta uma mulher misteriosa que procura homens, pais de crianças pequenas, que desaparecem depois de cruzar seu caminho. A personagem encontra uma espécie de ruptura em sua trajetória ao conhecer um apicultor viúvo e seu filho. Carol também está em “Pique-pega”, curta de Mia Lima Rocha selecionado para a Première Brasil – Panorama Carioca de Curtas.

Na produção brasileira, a O2 Play aparece com quatro títulos espalhados por diferentes segmentos da Première Brasil. “Maria de Maria”, de Luiza Shelling, leva uma jovem cangaceira para o Brasil de 1940, em meio ao projeto da Marcha para o Oeste. Isabel, de Gabe Klinger, acompanha uma sommelière frustrada com a rotina da alta gastronomia paulistana que sonha em abrir seu próprio bar de vinhos. Já “Privadas de Suas Vidas”, de Gustavo Vinagre e Gurcius Gewdner, mistura drama familiar e horror em uma história envolvendo uma mãe e seu filho adolescente não binário.

O futebol americano também encontra espaço com “Depois do Impacto: A História do Coritiba Crocodiles”, de Rafael Moraes. O documentário acompanha a reconstrução do time depois do acidente de ônibus que matou três jogadores. O longa representa ainda o primeiro filme internacional produzido pela NFL.

Cinema internacional

No cinema internacional, a lista é extensa. De Cannes chegam, além de “A Bola Preta”, obras como “Sheep in the Box”, de Hirokazu Kore-eda, e trabalhos de Emmanuel Marre e Asghar Farhadi. Berlim aparece com o vencedor do Urso de Ouro, “Cartas Amarelas”, de Ilker Çatak, enquanto o cinema brasileiro é representado por filmes como “Floresta do Fim do Mundo”, “Quem Matou Narciso?”, “Rosebush Pruning”, de Karim Aïnouz, e “Feito Pipa”, de Allan Deberton, escolhido pelo Brasil para a disputa por uma indicação ao Oscar 2027.

Veneza acrescenta nomes como Danny Boyle, Martin McDonagh e John Malkovich à programação, enquanto Sundance chega representado por filmes como “Josephine – Fragmentos de um Crime”, de Beth de Araújo, que terá a presença da diretora no Rio. O festival também recupera produções que passaram por Toronto, consolidando essa característica de funcionar como um grande ponto de encontro do cinema contemporâneo.

Cena de “Tender Loving Care”, novo filme de Mike Leigh | Foto: Divulgação

E ainda há espaço para os grandes autores. Mike Leigh apresenta “Tender Loving Care”; Werner Herzog leva Kate e Rooney Mara a uma história sobre duas irmãs em “O Vale Imaginário”; Bassam Tariq chega com “Your Mother”; e Yeon Sang-ho, diretor de “Invasão Zumbi”, aparece com o apocalíptico “Zona Zero”. Na mostra Itinerários Únicos, “Making Marie Antoinette” recupera imagens filmadas por Eleanor Coppola durante a produção de “Maria Antonieta”, de Sofia Coppola.

Como se tudo isso já não fosse suficiente, a música ocupa uma fatia importante da programação. Elza Soares, Ney Matogrosso, Alceu Valença, Aldir Blanc, Maria Alcina, Flora Purim, Airto Moreira e Marília Mendonça estão entre os artistas retratados em filmes do festival. Há ainda trabalhos que partem diretamente da música, como “Funk”, de Aly Muritiba, e “Alucinação”, de Renato Terra, Marcos Caetano e Leo Caetano.

No fim das contas, a força do Festival do Rio 2026 parece estar justamente nessa amplitude. Há filmes que chegam carregados de prêmios, cineastas veteranos, descobertas, cinema brasileiro, produções de gênero, documentários, música e nomes em processo de internacionalização. Durante onze dias, a cidade não apenas recebe filmes: recebe diferentes maneiras de pensar o cinema.

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