Redação Culturize-se
Carly Rae Jepsen nunca pareceu particularmente interessada em economizar canções. Desde “E•MO•TION”, de 2015, a cantora canadense transformou a abundância em parte de sua identidade artística. O álbum ganhou um Side B no ano seguinte; “Dedicated”, de 2019, recebeu tratamento semelhante; e “The Loneliest Time”, de 2022, também ganhou um disco complementar. Em “Day and Night”, porém, Jepsen abandona a ideia de álbum acompanhado por outro e apresenta, de saída, seu primeiro disco duplo.
São 24 faixas organizadas em dois universos. Day privilegia a luminosidade de baladas, pop com influência disco e atmosferas mais arejadas. Night mergulha no synth-pop, nas pistas de dança e em uma produção mais elegante e noturna. A divisão funciona menos como uma ruptura do que como uma extensão natural de uma artista que há anos explora diferentes possibilidades dentro da música pop.
Em Day, “After All” e “Something Tragic” flertam com uma psicodelia discreta, enquanto “Habits of Creatures” incorpora elementos de chillwave e “Wild Child” se aproxima do folk. Já Night é mais diretamente eletrônico. “Don’t Leave Me on the Dancefloor” assume uma dívida evidente com o ABBA, enquanto “That’s Just Me” poderia facilmente ser imaginada como uma sobra sofisticada da era “E•MO•TION”.

O problema está justamente na extensão. Embora a produção seja detalhada e frequentemente inventiva, faltam em boa parte das faixas aqueles refrões imediatos que fizeram de Jepsen uma das compositoras pop mais reconhecíveis de sua geração. As duas metades perdem força na segunda metade, tornando a experiência por vezes excessiva.
O paradoxo é que reduzir o álbum talvez significasse também eliminar algumas de suas melhores surpresas. Há bossa nova discreta, um solo que remete ao sitar, sintetizadores dissonantes e momentos de produção dançante particularmente envolventes. “Near or Far” e “Hold Me to the Light” mostram uma artista menos interessada em reproduzir fórmulas e mais disposta a ampliar seu vocabulário.
Tematicamente, contudo, Jepsen continua fiel às suas obsessões: paixão, desejo, paixão correspondida, paixão interrompida. A diferença é que, agora, o amor aparece menos como vertigem passageira e mais como possibilidade de permanência. A cantora compôs o álbum enquanto se apaixonava pelo músico e produtor Cole M.G.N., seu atual marido, e durante o período de produção ficou grávida de seu primeiro filho.
Essa transformação atravessa “Motivation”, sobre família e identidade, e sobretudo “Super Sage”, em que Jepsen encara de maneira mais vulnerável aquilo que herdou de sua própria família. No fim, “Day and Night” encontra sua força justamente nessa contradição: é um álbum sobre estabilidade feito por uma artista que decidiu experimentar.