Redação Culturize-se
Há lugares onde a literatura mora nas prateleiras. Em São Bento do Sapucaí, pequena cidade encravada na Serra da Mantiqueira, ela desce para a rua. Entre 12 e 20 de setembro, a 14ª edição da Festa Literária do Interior Paulista Eugênia Sereno — a FLIPES — transforma o município inteiro em cenário e personagem de sua própria narrativa. Não é força de expressão: por nove dias, ruas, escolas rurais, biblioteca, casarões históricos e praças recebem lançamentos de livros, cortejos de Folia de Reis, rodas de maracatu, apresentações de fandango caiçara, exibições de cinema e mesas de gastronomia caipira, tudo de entrada gratuita.
O que diferencia a FLIPES de tantas outras festas literárias espalhadas pelo país é justamente essa recusa em separar o livro do território que o cerca. Cerca de 80% da programação é conduzida por artistas e agentes culturais da própria região da Mantiqueira — não são convidados de fora que chegam para “representar” a cultura local, mas os próprios praticantes dessa cultura que sobem ao palco. A escritora Bel Santos Mayer, o educador Célio Turino e nomes como Cris Eich, André Kondo, André Gravatá, Lilia Guerra, Socorro Lira e Lenna Bahule dividem a programação com grupos de teatro, folias, mestres do bordado e cozinheiras de fogão a lenha que raramente ocupam o centro de um festival literário.

Uma cidade que nasce de uma escritora
Para entender por que São Bento do Sapucaí se tornou esse território literário, é preciso voltar a 1913, ano em que nasceu ali Benedicta Pereira de Rezende Graciotti — nome que a posteridade guarda sob o pseudônimo de Eugênia Sereno. Professora, pianista e escritora, ela construiu uma obra profundamente enraizada na vida e nas tradições do interior da Mantiqueira. Seu romance mais conhecido, “O Pássaro da Escuridão”, publicado em 1965, rendeu-lhe o Prêmio Jabuti de Autora Revelação no ano seguinte — um reconhecimento raro para uma autora do interior paulista naquele período.
O que torna a obra de Eugênia Sereno especialmente relevante para o festival que hoje leva seu nome é o próprio gesto que a define: registrar costumes, paisagens e modos de vida de um interior que raramente ganhava voz própria na literatura brasileira. Ao batizar a festa com seu nome e realizá-la em sua cidade natal, a FLIPES não presta apenas uma homenagem simbólica — ela repete, décadas depois, o mesmo movimento que fez a escritora relevante: colocar o cotidiano da Mantiqueira, com seus mestres populares e suas tradições orais, no centro da narrativa. A festa nasceu em 2007, a partir de iniciativas culturais ligadas ao território, e se consolidou como festa literária em 2012. Desde então, já reuniu mais de 25 mil visitantes acumulados e, em 2025, foi um dos 15 projetos selecionados pelo Edital ProAC de Festivais, entre mais de mil inscritos em todo o estado de São Paulo.
Quando o cortejo é a abertura do livro
Essa fusão entre território e literatura fica evidente já na abertura oficial, no domingo, 13 de setembro. Em vez de um discurso de palco, a festa começa com um cortejo pelas ruas da cidade: Maracatu Mantiqueira, Folia de Reis, Sucatas Ambulantes e Teatro Realejo caminham juntos, seguidos pela quarta edição da Maratona de Histórias — “Contando o Contado”, que reúne diferentes grupos em torno da tradição oral. É uma escolha curatorial deliberada. A cultura popular não entra como atração paralela, um intervalo entre uma mesa de debate e outra; ela é a própria abertura do festival, o primeiro capítulo de um livro que se lê caminhando.
Ao longo da semana, essas manifestações se intercalam com a programação mais convencional de uma festa literária — lançamentos, mesas de debate, oficinas de escrita. Na quarta-feira (16) é a vez do fandango caiçara, apresentado pelo Grupo Quebra Chiquinha, tradição que remonta às comunidades pesqueiras e caiçaras do litoral paulista e que encontra, na Mantiqueira, um território de reencontro com suas raízes rurais. Na sexta-feira (18) uma oficina de bordado com Maria Cipriano recupera um saber manual historicamente feminino e silencioso, transmitido de geração em geração — o mesmo tipo de saber que atravessa a obra de Eugênia Sereno.
O livro que também é escola
Um dos aspectos menos visíveis, mas talvez mais significativos da FLIPES, é sua circulação pelas escolas rurais do município. Na segunda-feira (14), uma contação de histórias percorre as escolas do interior de São Bento do Sapucaí — um deslocamento simbólico e prático que leva a literatura para onde ela raramente chega primeiro. A festa atende, em média, cinco escolas públicas por edição, e a programação infantojuvenil se estende por toda a semana, culminando, no último dia, na roda de conversa “Será que meu filho, minha filha é escritor ou escritora?”, voltada a crianças e a escritores que se dedicam ao público infantojuvenil.

Essa atenção à formação de leitores não se limita aos nove dias de festa. Antes mesmo da abertura oficial, o chamado Esquenta da FLIPES já promove, no Casarão da Memória, oficinas gratuitas de danças brasileiras, teatro literário infantojuvenil e canto — sinal de que o festival entende a cultura como prática cotidiana, não como evento pontual. É essa mesma lógica que sustenta a Comedoria Literária, instalada no histórico Casarão da Memória, onde restaurante, biblioteca comunitária e centro cultural dividem o mesmo endereço. Ali, receitas caipiras e fogão a lenha convivem com uma safra mais recente de vinhos de altitude, queijos artesanais e cervejas produzidos na região — gastronomia como extensão natural da narrativa literária do território.
Uma narrativa que se escreve coletivamente
No encerramento, no domingo, 20 de setembro, o Samba de Marias presta tributo às mulheres sambistas — fechamento que, de certa forma, devolve à festa o gesto que a inaugura: reconhecer, na figura de uma mulher do interior, um ponto de partida para pensar cultura, memória e resistência. Não é coincidência que a mesma lógica atravesse a homenagem a Eugênia Sereno, professora e escritora cuja obra só se tornou visível décadas depois de escrita.
Ao reunir entre 50 e 120 artistas por edição e receber, em média, 2.500 pessoas, a FLIPES prova que um festival literário pode funcionar como instrumento de desenvolvimento territorial — impactando turismo, hospedagem, alimentação e economia criativa — sem abrir mão de sua vocação mais original: fazer da própria cidade, com seus mestres populares, suas escolas rurais e sua memória histórica, o texto principal a ser lido. Como resume a proposta da festa, o território não é cenário para os livros. Ele próprio vira narrativa.
Serviço: 14ª FLIPES – Festa Literária do Interior Paulista Eugênia Sereno. Pré-abertura em 12 de setembro; festival de 13 a 20 de setembro de 2026, em São Bento do Sapucaí (SP). Entrada gratuita.