Redação Culturize-se
Há uma diferença importante entre estar cansado e viver em estado de exaustão. O cansaço é uma experiência humana circunstancial: depois de um esforço, o corpo pede repouso; depois de uma tensão, a mente procura silêncio. A exaustão, porém, é outra coisa. Ela acontece quando o descanso deixa de ser suficiente porque o próprio modo de vida passou a produzir continuamente aquilo que nos esgota.
É nesse ponto que a exaustão deixa de ser apenas uma questão individual e adquire dimensão cultural. Não estamos diante de uma epidemia de pessoas incapazes de administrar adequadamente o próprio tempo. Estamos diante de uma sociedade que transformou a disponibilidade permanente, a produtividade e a performance em valores quase morais. Descansar passou a exigir justificativa. Fazer nada parece desperdício. Estar ocupado tornou-se uma espécie de certificado de relevância.
Essa discussão é bem adensada em “Exaustos: Imaginando saídas para o cansaço diário”, do psicólogo Lucas Freire. Mais de 470 mil brasileiros foram afastados do trabalho por transtornos mentais somente em 2024. O número não explica sozinho a complexidade do fenômeno, mas ajuda a dimensionar uma transformação que já não pode ser tratada como fragilidade pessoal. Existe alguma coisa estruturalmente adoecedora na maneira como estamos organizando a experiência contemporânea.
Freire parte justamente dessa percepção. Sua ideia de uma sociedade acelerada toca em uma ferida central do nosso tempo: fomos educados para acreditar que velocidade é sinônimo de competência. A lentidão, como observa o psicólogo, passou a ser confundida com ineficiência. A multitarefa tornou-se virtude quando, na realidade, frequentemente significa apenas a incapacidade de permanecer inteiro diante de uma única tarefa.
A questão psicológica que emerge daí é profunda. O sujeito contemporâneo não é apenas alguém que faz muitas coisas. É alguém que aprendeu a sentir culpa quando não está fazendo alguma coisa.
Essa culpa ajuda a explicar por que a exaustão se tornou tão difícil de interromper. Mesmo quando não estamos trabalhando, continuamos conectados ao trabalho. Mesmo quando estamos descansando, somos atravessados por notificações, mensagens, vídeos, notícias, publicidade e estímulos destinados a capturar nossa atenção. O descanso, paradoxalmente, passou a ser povoado por atividades que mantêm o cérebro em estado de alerta.

É o que Lucas Freire chama de “neuroprisão”. A expressão é particularmente interessante porque desloca o debate da simples gestão do tempo para a disputa pela atenção. Não basta perguntar quanto tempo temos disponível; é preciso perguntar quem controla nossa atenção durante esse tempo.
O scrolling infinito é talvez uma das manifestações mais evidentes dessa lógica. A promessa é de entretenimento, mas o resultado muitas vezes é uma sucessão automática de estímulos que não produz exatamente prazer, tampouco repouso. O indivíduo desliza a tela não porque tenha decidido conscientemente fazê-lo, mas porque se tornou difícil suportar alguns segundos de vazio.
E talvez esse seja um dos sintomas mais reveladores da cultura da exaustão: perdemos a capacidade de conviver com o intervalo.
A sociedade digital transformou o intervalo em oportunidade de consumo. O elevador oferece publicidade. A fila oferece conteúdo. O trânsito oferece podcasts. A caminhada oferece música. O almoço oferece mensagens. Antes mesmo que o pensamento consiga aparecer, algum estímulo chega para ocupá-lo.
O FOMO — o medo de estar perdendo alguma coisa — completa esse mecanismo. A vida dos outros está permanentemente disponível nas telas, editada, selecionada e apresentada como uma sucessão de acontecimentos. Isso produz uma comparação silenciosa e incessante: enquanto eu descanso, alguém produz; enquanto eu estou trabalhando, alguém viaja; enquanto durmo, alguém conquista; enquanto hesito, alguém avança.
A consequência é uma experiência subjetiva de insuficiência permanente.
Nesse sentido, a cultura da exaustão não produz apenas trabalhadores cansados. Produz sujeitos que sentem que nunca são suficientes. O problema deixa de ser “quanto eu faço?” e passa a ser “por que eu nunca faço o bastante?”. É uma mudança decisiva porque transforma a produtividade em identidade.
É nesse território que o Playfulness proposto por Freire ganha relevância psicológica. Se compreendido apenas como “brincadeira”, o conceito poderia parecer ingênuo diante da gravidade do problema. Mas sua definição é mais sofisticada: trata-se de recuperar uma disposição para a curiosidade, a espontaneidade, a criatividade e o prazer não instrumentalizado.
Brincar, nesse sentido, não significa abandonar a responsabilidade adulta. Significa recuperar uma dimensão da existência que a lógica produtivista progressivamente colonizou: fazer alguma coisa sem precisar transformá-la imediatamente em resultado.
Uma criança pode desenhar sem perguntar se o desenho será útil. Um adulto, frequentemente, pergunta se aquilo pode virar dinheiro, conteúdo, currículo, postagem ou oportunidade. Até o lazer passou a ser produtivo. Corremos para melhorar nossa performance física, viajamos para produzir memórias publicáveis e lemos para acumular conhecimento. Há sempre um produto esperando no final da experiência.
Recuperar o lúdico é, portanto, uma forma de recuperar a experiência pela experiência.
Também por isso a proposta de Freire é mais interessante quando compreendida não como uma técnica de “otimização” pessoal, mas como uma crítica à própria necessidade de otimização permanente. Auditorias de tempo, detox de notificações e autodiagnóstico das chamadas neuroprisões podem ser ferramentas importantes, mas seu sentido mais profundo está em devolver ao indivíduo a capacidade de escolher onde coloca sua atenção.
A questão não é simplesmente produzir menos. É viver para além da lógica da produção.
A cultura da exaustão talvez seja tão poderosa justamente porque se apresenta como normalidade. Todos estão cansados, portanto o cansaço parece inevitável. Todos estão conectados, portanto a desconexão parece estranha. Todos estão correndo, portanto parar parece fracasso.
Mas aquilo que é socialmente comum não é necessariamente psicologicamente saudável.
Talvez a tarefa mais radical de nosso tempo seja reaprender a parar antes que o corpo precise nos obrigar a fazê-lo. Recuperar o silêncio, o ócio, a curiosidade, a conversa sem finalidade, a contemplação e a brincadeira. Não como privilégios, mas como componentes fundamentais de uma existência mentalmente sustentável.