Redação Culturize-se
Há algo de profundamente simbólico na imagem de uma cozinha em funcionamento. Panelas, alimentos, pessoas que chegam, outras que trabalham, alguém que serve. Parece uma operação cotidiana, quase banal. Mas, em “Não Existe Almoço Grátis”, documentário dirigido por Marcos Nepomuceno e Pedro Charbel, cozinhar se transforma em uma forma de organização política e, sobretudo, em uma manifestação de solidariedade. O filme recupera a gênese das Cozinhas Solidárias do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), experiência que surgiu durante a pandemia e posteriormente se tornou política pública do governo Lula.
É evidente que o documentário possui uma posição política. Sua simpatia pelo MTST e pela gestão Lula é explícita, e sua estreia em um ano eleitoral acrescenta uma camada circunstancial impossível de ignorar. Mas reduzir a obra a uma peça de propaganda seria perder justamente aquilo que ela tem de mais interessante. “Não Existe Almoço Grátis” quer tocar o humano, e encontra em três mulheres — Bizza, Jurailde e Socorro — personagens capazes de transformar uma discussão sobre política pública em uma reflexão sobre identidade, pertencimento e comunidade.
Essa talvez seja sua principal virtude: mostrar que uma política de combate à fome pode ser também uma política de reconstrução subjetiva. À medida que as três protagonistas se envolvem com o movimento, suas percepções políticas se modificam, mas também se transforma a maneira como enxergam a si próprias.
Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
“Costurando relatos íntimos ao registro vivo e em movimento da força da organização coletiva, o filme é um manifesto contra as máximas neoliberais da meritocracia, do individualismo e do lucro”, afirmam os diretores em material de imprensa. A formulação deixa clara a natureza ideológica da obra, mas também ajuda a compreender sua estratégia narrativa. Em vez de construir uma argumentação exclusivamente teórica, Nepomuceno e Charbel colocam a experiência cotidiana dessas mulheres no centro da discussão.

O ponto de partida é o Sol Nascente, em Brasília, uma das maiores comunidades urbanas do país. Às vésperas da posse de Luiz Inácio Lula da Silva, em janeiro de 2023, Bizza, Jurailde e Socorro assumem a responsabilidade de preparar refeições para centenas de militantes que chegariam à capital. O que o filme acompanha é a transformação daquela experiência em algo maior.
A própria Brasília funciona como personagem. Os diretores destacam a intenção de revelar “o contraste da desigualdade social no Distrito Federal”, fazendo da capital “uma personagem símbolo de injustiças a serem superadas”. É uma escolha visual particularmente eloquente: a cidade dos palácios e das decisões nacionais confrontada com a precariedade de uma população que precisa se organizar para garantir o alimento.
O filme também propõe uma espécie de desmistificação do MTST. Em uma sociedade que frequentemente reduz movimentos sociais a caricaturas ideológicas, “Não Existe Almoço Grátis” mostra o trabalho que existe por trás da militância. Não esconde o posicionamento político, mas desloca o foco para as pessoas que o sustentam.
Há nisso uma reflexão que transcende a esquerda e a direita. É possível discordar das premissas ideológicas do documentário e ainda reconhecer a força de pessoas que se mobilizam para alimentar outras pessoas. Talvez esse seja o ponto em que o filme consiga furar as bolhas políticas que hoje segmentam o Brasil.
“Há um pacto profundo entre filme e movimento social”, dizem os realizadores, “do qual emerge a possibilidade de um mergulho na realidade do maior movimento urbano da América Latina e nos laços de afeto e comunidade fundamentais para combater as estruturas injustas de nossa sociedade”.
É justamente nesses laços que “Não Existe Almoço Grátis” encontra sua razão de existir. O filme é político, mas sua política nasce de uma coisa mais elementar: a ideia de que ninguém deveria estar sozinho diante da fome.