Por Reinaldo Glioche
É difícil encontrar um cineasta que mantenha a mais alta forma em todos os seus projetos, em sequência. Mesmo nomes do calibre de David Fincher, Christopher Nolan e Ridley Scott acumulam filmes menos inspirados em suas filmografias. A irregularidade, portanto, é parte da trajetória de qualquer realizador e isso obviamente também se aplica a Eli Roth, que, embora não esteja no mesmo patamar dessas lendas vivas do cinema, construiu uma carreira particularmente interessante dentro do cinema de terror.
Roth ajudou a popularizar o chamado torture porn no início dos anos 2000 com “O Albergue” e recebeu o aval de Quentin Tarantino, uma espécie de chancela que contribuiu para consolidá-lo como um nome relevante dentro do gênero. Mais importante do que isso, porém, é que Roth desenvolveu uma gramática própria. Há em seus filmes um domínio narrativo insinuante, uma capacidade de trabalhar o suspense e, sobretudo, um gosto muito particular pelo humor como elemento de desequilíbrio.
No cinema de Eli Roth, o grotesco frequentemente convive com o nonsense. O horror pode ser repulsivo e, ao mesmo tempo, deliberadamente engraçado. É justamente essa combinação que torna seu trabalho mais interessante — e também menos palatável para uma parcela do público.
Nos últimos anos, Roth tentou escapar um pouco desse confinamento. “O Mistério do Relógio na Parede”, “Desejo de Matar” e “Borderlands” são exemplos de experiências em que o cineasta procurou operar fora do território que o tornou conhecido. Há mérito nessa tentativa de não permanecer aprisionado a um único gênero. Mas também há uma constatação difícil de contestar: Eli Roth funciona melhor quando está fazendo terror.
E ele está de volta ao seu habitat em “O Sorveteiro”.
O filme tem algo de conto de lenda urbana, daqueles que se contam em volta de uma fogueira para assustar crianças. E essa talvez seja uma das coisas mais simpáticas, e mais perversas, de sua proposta. A premissa é deliberadamente absurda e o filme jamais pretende tratá-la com seriedade.
Esse parâmetro precisa estar estabelecido desde o início: quem exigir realismo ou solenidade de “O Sorveteiro” está partindo do pressuposto errado e, inevitavelmente, vai se decepcionar.

A história se passa em uma pequena cidade onde um sorveteiro percorre as ruas com seu carrinho. Tudo parece relativamente banal até que sua musiquinha característica começa a tocar. As crianças reconhecem o som, entram em uma espécie de estado hipnótico e, subitamente, transformam-se em pequenas máquinas de matar. O alvo são os adultos.
A partir daí, Eli Roth se entrega a uma sucessão de cenas grotescas em que o gore prevalece, mas nunca está desacompanhado daquele humor absurdo que acompanha boa parte de sua filmografia. O filme parece saber exatamente o que é e, sobretudo, o que não pretende ser.
Há um grupo de crianças que, por diferentes razões, não tomou o sorvete. Elas escapam, portanto, da ação hipnótica dessa figura que progressivamente se revela algo muito mais sinistro — eventualmente demoníaco. Primeiro, precisam sobreviver. Depois, precisam descobrir como interromper aquilo que está acontecendo com seus colegas, amigos e vizinhos.
Tudo isso acontece em pouco mais de 80 minutos. E essa duração reduzida é coerente com a proposta. “O Sorveteiro” não parece interessado em construir uma mitologia sofisticada ou oferecer explicações exaustivas para cada elemento de sua premissa. Ele quer contar uma história macabra, visualmente explícita e divertida dentro de sua própria lógica.
O que há de mais interessante no filme é justamente sua recusa em fazer concessões. Roth parece operar aqui com uma liberdade que nem sempre está disponível dentro de uma produção cinematográfica mais convencional. E essa liberdade permite que o filme seja mais sujo, mais gráfico e menos comprometido com determinadas regras da dramaturgia hollywoodiana.
É inevitável lembrar de “A Hora do Mal”, lançado no ano passado, que também encontrou sucesso a partir de uma premissa envolvendo crianças e uma ameaça extraordinária. Mas, enquanto aquele filme procurava extrair tensão e estranhamento de sua ideia central, “O Sorveteiro” parece muito mais interessado em transformar o absurdo em espetáculo.
Não significa que seja melhor ou pior. Significa que está jogando outro jogo.
E talvez seja justamente essa a grande qualidade do novo filme de Eli Roth: ele não parece interessado em convencer ninguém de que aquilo é algo diferente do que realmente é.

“O Sorveteiro” é filme B raiz
É visceral, gráfico, grotesco e, em muitos momentos, deliberadamente ridículo. Mas existe consciência nessa ridicularidade. O filme sabe que está brincando com uma premissa insólita e não tenta conferir a ela uma gravidade que ela não possui.
De longe, não é um filme para qualquer espectador. Mas, para quem gosta de um terror sem verniz, disposto a abraçar o gore, o nonsense e uma boa dose de humor macabro, há aqui uma experiência particularmente satisfatória.
Eli Roth pode continuar sendo irregular. Isso faz parte do jogo. Mas quando retorna ao território que domina, ele ainda sabe exatamente onde apertar para fazer o espectador gritar — e, logo depois, rir da própria gritaria.