Redação Culturize-se
Parece contraditório: um sapato desenhado para dar a impressão de que não existe sapato nenhum. Mas é exatamente essa a proposta da barefoot sandal, peça que a Chanel apresentou no desfile de cruzeiro 2027, em Biarritz, no fim de abril, e que só nas últimas semanas explodiu como fenômeno de moda. O modelo cobre apenas uma pequena parte do calcanhar em couro, preso por duas tiras finas amarradas ao redor do tornozelo — o suficiente para parecer, à primeira vista, que a usuária está simplesmente descalça.
O gatilho para a viralização veio do red carpet. A atriz Margaret Qualley usou o modelo em um evento em Londres nesta semana, dando à peça sua estreia formal fora das passarelas, o que consolidou de vez o item como tendência a ser observada. Não é a primeira vez que a estética “pé nu” movimenta o noticiário de moda: levantamentos recentes do setor já apontavam o interesse crescente por calçados que expõem o pé como o assunto mais quente da temporada, incluindo sandálias minimalistas e modelos que imitam o efeito de estar descalço.
O episódio reforça um mecanismo bem conhecido da indústria. Uma proposta radical, quase absurda em sua simplicidade, só se transforma em tendência de fato quando validada por uma celebridade em um momento público de alto impacto. A moda tem um histórico extenso desse tipo de adesão. Em 2016, quando Julia Roberts subiu descalça a escadaria do tapete vermelho de Cannes, driblando as regras rígidas de salto alto do festival, o gesto foi lido pela imprensa francesa como um ato de rebeldia estética — e ajudou a legitimar, anos depois, a ideia de que “menos sapato” também é sapato.

A lógica se repete com outras extravagâncias que só pegaram depois do carimbo hollywoodiano: o vestido transparente, os saltos disformes das passarelas recentes ou até os tênis híbridos que dominam os red carpets de 2026. Nenhuma dessas peças nasce como consenso; todas dependem de uma estrela disposta a validá-las publicamente antes de chegarem às vitrines.
Com a barefoot sandal, a Chanel aposta na mesma fórmula. Um design que divide opiniões, uma celebridade certeira para estreá-lo e a expectativa de que, em poucos meses, o item saia do domínio do escândalo fashion e se torne item básico de guarda-roupa — como aconteceu, décadas atrás, com o próprio salto alto.