Redação Culturize-se
O Prime Video está deixando de tratar a América Latina como um conjunto de mercados periféricos para transformá-la em uma frente estratégica de expansão. O anúncio de um investimento superior a US$ 2 bilhões entre 2027 e 2030, apresentado durante o Prime Video Presents Latin America, na Cidade do México, sinaliza uma mudança de escala na disputa pelo público da região. O plano contempla produções originais, aquisição de conteúdos locais, esportes ao vivo e desenvolvimento de talentos em Brasil, México, Argentina, Colômbia e Chile.
A dimensão do investimento é acompanhada por uma meta igualmente ambiciosa: mais do que dobrar, até 2030, o número de originais locais produzidos nesses cinco países em comparação com 2026. Apenas para 2027, o catálogo anunciado reúne mais de 25 novos títulos, entre séries de ficção, filmes, realities e programas não roteirizados. A estratégia revela que a Amazon MGM Studios não pretende apenas ampliar a oferta de conteúdo latino-americano, mas disputar a formação de repertório e hábitos de consumo de uma audiência cada vez mais acostumada a circular entre produções nacionais e internacionais.
A aposta também passa por uma compreensão bastante objetiva do que pode tornar uma produção local competitiva internacionalmente. “Nosso trabalho é encontrar histórias inegavelmente locais e torná-las inegavelmente universais”, afirmou Javiera Balmaceda, responsável pelos Originais Internacionais para América Latina, Canadá e Austrália. O catálogo apresentado confirma essa lógica: há histórias baseadas em crimes reais, dramas familiares, romances, comédias, personagens ligados à cultura popular e adaptações literárias.
No Brasil, a estratégia ganha contornos particularmente interessantes. Entre os projetos anunciados estão a segunda temporada de “Tremembé”, um filme sobre Marília Mendonça, uma produção sobre Maiara & Maraisa, o thriller “Obsessão”, “Quem matou PC Farias?”, “Tiros no Escuro” e o reality “Oi, Sumido!”. É um conjunto que combina nomes de enorme reconhecimento popular, histórias criminais que já fazem parte do imaginário nacional e formatos de entretenimento capazes de dialogar diretamente com a televisão aberta.

É justamente “Oi, Sumido!” que melhor traduz outra dimensão dessa expansão. Dirigido por Boninho, o reality é uma adaptação do formato sul-coreano EXchange, que combina romance, mistério e a possibilidade de recomeços. Cinco ex-casais vão morar juntos sem saber, inicialmente, quem é o antigo parceiro de quem. A partir daí, relações passadas reaparecem, novas conexões são estabelecidas e o programa transforma a intimidade em motor narrativo. As gravações estão previstas para São Paulo e Campos do Jordão a partir de setembro.
A escolha de Boninho não é casual. O diretor construiu uma trajetória associada à compreensão dos mecanismos de audiência dos realities brasileiros, e sua presença sugere que o Prime Video está interessado não apenas em importar formatos globais, mas em tropicalizá-los. A produção ainda terá a chamada “Galera do Sofá”, um painel fixo de celebridades encarregado de comentar as situações e ajudar o espectador a decifrar as relações entre os participantes.
O outro grande eixo da estratégia é o esporte. Mais de 20 milhões de lares latino-americanos assistiram a transmissões esportivas do Prime Video em 2026, número que já supera o total registrado em todo o ano anterior. A NBA ganhou espaço com a expansão do acordo global de 11 anos, enquanto, no Brasil, a Copa do Brasil e o Brasileirão ampliam a presença da plataforma no futebol nacional. A empresa também projeta novas oportunidades no México, onde passará a transmitir 38 jogos da seleção nacional em quatro anos.

Há, portanto, uma lógica empresarial que vai muito além da produção audiovisual. O Prime Video quer concentrar diferentes formas de entretenimento dentro de sua plataforma. Em novos territórios latino-americanos, será possível assinar serviços de terceiros e alugar ou comprar filmes diretamente pelo aplicativo, sem a necessidade de uma assinatura Prime. É uma estratégia de agregação que transforma o Prime Video menos em um serviço de streaming isolado e mais em uma porta de entrada para um ecossistema de entretenimento.
Mas talvez o aspecto mais relevante do anúncio esteja nos investimentos que não aparecem imediatamente na tela. A Amazon afirma estar ampliando programas de formação profissional e desenvolvimento de talentos, incluindo o Brasil no Set, realizado com BRAVI e ICAB, além de parcerias com instituições públicas e privadas para capacitação técnica. A intenção declarada é criar uma economia criativa sustentável e fortalecer a infraestrutura humana necessária para sustentar a expansão.
O movimento coloca o Brasil no centro de uma disputa que tende a se intensificar. Netflix, Disney+, HBO Max, Globoplay e agora um Prime Video mais agressivo competem não apenas por assinantes, mas por histórias, talentos, direitos esportivos e propriedade intelectual. Ao investir bilhões na região e transformar produções locais em parte central de sua estratégia, a Amazon reconhece algo que o mercado já vem demonstrando: na América Latina, o conteúdo local deixou de ser complemento. É um dos principais ativos para conquistar o público — e, potencialmente, levá-lo para além de suas fronteiras.