Redação Culturize-se
A figura lendária de Robin Hood há séculos habita o imaginário popular como a do arqueiro nobre que rouba dos ricos para dar aos pobres, festejando com seus companheiros nas profundezas da Floresta de Sherwood. No entanto, em “A Morte de Robin Hood”, nova produção do estúdio A24 com distribuição da Imagem Filmes no Brasil, essa visão romântica e idealizada é sumariamente descartada em favor de uma narrativa áspera, crua e profundamente humana. Sob a direção de Michael Sarnoski, conhecido por seu trabalho em “Pig” e “Um Lugar Silencioso: Dia Um”, o longa-metragem propõe uma releitura subversiva dos últimos dias do fora da lei britânico, confrontando-o com o peso de seu passado violento.
O ponto de partida da obra fundamenta-se em uma antiga e pouco conhecida balada medieval que Sarnoski leu ainda na infância. Na literatura original, o herói é traído e morto por uma prioresa cruel. O filme opera uma inversão total dessa dinâmica: Robin surge não como uma vítima imaculada, mas como um algoz envelhecido, caçado como um pária nas margens de uma terra devastada por volta do ano de 1247. Após sobreviver a uma sangrenta batalha para a qual foi arrastado por seu antigo parceiro de crimes, Litlle John, ele busca abrigo, gravemente ferido, em um priorado isolado. É nesse refúgio que ele é acolhido pela Irmã Brigid, a prioresa que, longe de ser uma vilã, converte-se na única oportunidade de redenção e cura para o guerreiro despedaçado.

No papel do protagonista, Hugh Jackman retorna a um território dramático em que entregou algumas das atuações mais aclamadas de sua carreira, remetendo à vulnerabilidade e ao cansaço existencial vistos em produções como “Logan”. O ator passou por uma intensa transformação física para encarnar um homem castigado pelo tempo e pela culpa, sustentando o personagem por meio do olhar, de gestos contidos e de um figurino pesado construído com próteses e tecidos rústicos. Não se trata de uma jornada em busca do resgate de uma glória perdida, mas da tentativa desesperada de fazer as pazes com a própria consciência antes do inevitável fim.
A contraponto de Jackman está a atriz britânica Jodie Comer, vencedora do Emmy e do BAFTA por “Killing Eve”, que dá vida à Irmã Brigid. A caracterização da personagem buscou inspiração na figura histórica de Hildegard von Bingen, freira, filósofa e curandeira do século XII. Brigid é retratada como uma mulher compassiva e dona de um magnetismo quase atemporal, mas que também carrega suas próprias dores e segredos guardados. A relação entre o caçador ferido e a religiosa estrutura o núcleo emocional da história: sob o olhar incisivo e a gentileza firme de Brigid, Robin abandona gradualmente a postura defensiva e considera, pela primeira vez na vida, a possibilidade de alcançar a bondade. A química entre os atores foi beneficiada por um trabalho prévio conjunto em ensaios de dança anos antes, conferindo organicidade à dinâmica de cena.
Ao redor da dupla principal, Sarnoski reuniu um elenco que conjuga nomes consolidados e jovens promessas. Bill Skarsgård interpreta Little John, equilibrando ferocidade animalesca e inocência. Murray Bartlett vive um homem enigmático e coberto por bandagens que habita o priorado, enquanto os jovens Noah Jupe e Faith Delaney interpretam adolescentes marcados pelos traumas e pelas consequências diretas das ações passadas do próprio Robin.






Além do rigor narrativo, “A Morte de Robin Hood” destaca-se por uma concepção estética rigorosamente artesanal, avessa aos excessos digitais do cinema contemporâneo. O diretor de fotografia Pat Scola rodou o longa inteiramente em película de celulóide, utilizando a luz e a paleta de cores como ferramentas de transição psicológica: o início da jornada é marcado por tons frios e cinzentos que traduzem a brutalidade das batalhas, ao passo que a chegada ao priorado introduz cores mais quentes e luminosas, simbolizando a cicatrização física e espiritual do protagonista. O próprio aspecto de tela acompanha essa mudança, migrando do formato widescreen épico da primeira metade para uma razão de aspecto mais fechada e íntima na segunda etapa.
A produção recusou o uso de computação gráfica (VFX) para a concepção das sequências de ação e caracterização de ferimentos. As flechas que perfuram corpos, as fraturas e as marcas de cicatrização foram desenvolvidas na prática pelos designers de próteses Clare Ramsey e Josh Weston — este último integrante da equipe premiada com o Oscar por “Pobres Criaturas”. A célebre cena de sangria entre Brigid e Robin, elemento central da mitologia original, foi gravada em plano contínuo com mecanismos ocultos sob o figurino de Jackman. As armas e arcos foram confeccionados sob medida por Tommy Dunne, armeiro veterano de produções como “Game of Thrones” e “Coração Valente”.
Filmado em locações reais na Irlanda do Norte, o longa conta com cenários desenhados à mão pelo designer de produção David Lee (“Watchmen”). O priorado, centro gravitacional da trama, foi projetado como uma estrutura de origem romana que sofreu modificações arquitetônicas de múltiplos povos ao longo dos séculos. A imersão tátil e sensorial é finalizada pela trilha sonora do músico folk britânico Jim Ghedi, que assina sua primeira composição para o cinema. Ao despir a lenda de seus artifícios e folclores, a obra entrega uma reflexão melancólica e visceral sobre a violência, o tempo e a busca tardia pela paz.