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"Jogada de Risco" é muito mais do que o “proibidão” do futebol

Por Reinaldo Glioche

Baseada em uma ideia original do ator Cauã Raymond, “Jogada de Risco” é a grande surpresa entre as séries brasileiras de 2026 — e, talvez, a melhor produção original do Globoplay desde o lançamento da primeira temporada de “Os Outros”, em 2023. O sucesso, inclusive, não se confina à subjetividade. O próprio streaming divulgou que a série foi sua produção original de maior desempenho. Não é pouca coisa.

O curioso é que a campanha de divulgação vendeu “Jogada de Risco” como uma espécie de lado proibidão do futebol. E é natural que o marketing tenha apostado nisso. Os dois primeiros episódios, sobretudo, parecem recuperados de uma tradição de produções da HBO do fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, com fartas doses de nudez, sexo e cenas sensuais como estratégia para fisgar o espectador. Só que a série rapidamente demonstra que é muito mais interessante quando deixa esse aspecto em segundo plano.

Forçando um pouco o paralelo, “Jogada de Risco” tem uma estrutura bastante próxima de determinadas séries americanas que utilizam um universo esportivo para falar, na verdade, sobre poder, dinheiro, ambição e relações humanas. É o caso de “Ballers” (2015-2019), da HBO, protagonizada por Dwayne “The Rock” Johnson, em que o ator interpreta um agente tentando sobreviver ao competitivo e pouco inocente mundo dos bastidores do futebol americano.

A lógica aqui é semelhante. Maurício, vivido por Raymond, é um ex-jogador de futebol que não conseguiu transformar o talento em uma carreira bem-sucedida. Carrega as consequências físicas desse passado — sobretudo um joelho com dores provocadas pelas sucessivas infiltrações — e tenta agora se estabelecer como agente de jogadores.

Maurício tem faro para o talento. O problema é que sua capacidade de reconhecer bons jogadores parece proporcional à facilidade que tem para se meter em enrascadas. Empréstimo com agiota, contratos mal amarrados e decisões pouco prudentes vão compondo, desde o primeiro episódio, uma dinâmica que conduz toda a primeira temporada, de oito episódios.

Fotos: Divulgação

É justamente aí que “Jogada de Risco” encontra sua melhor forma. A série utiliza o futebol como uma espécie de microcosmo para discutir tudo aquilo que acontece ao redor dele: esquemas de apostas, festas, sexo, ostentação, dinheiro, pequenos acordos capazes de movimentar um mercado inflacionado e, ainda, a dificuldade de lidar com a homossexualidade em um ambiente tradicionalmente marcado pela masculinidade tóxica.

Mas a série não transforma essas questões em teses. Elas aparecem incorporadas à trama, como parte daquele universo em que todo mundo parece estar tentando ganhar alguma coisa — dinheiro, prestígio, poder ou simplesmente uma segunda chance.

Cauã Raymond é o centro dessa engrenagem e chama atenção pela maneira cativante como constrói Maurício. O personagem está longe de ser um sujeito irrepreensível. Faz escolhas questionáveis, toma decisões ruins e frequentemente contribui para os próprios problemas. Há, porém, uma ingenuidade, quase uma pureza, que impede que o espectador desista dele. É fácil torcer por Maurício justamente porque ele parece acreditar que ainda é possível jogar limpo em um ambiente no qual quase ninguém joga.

Essa característica se torna ainda mais evidente na rivalidade com Fernando, interpretado por Marcelo Adnet. A disputa entre os dois começa nos campos e chega aos bastidores. Fernando é um agente muito mais bem-sucedido, enquanto Maurício ainda tenta encontrar seu espaço. Um ressentimento antigo motiva uma sucessão de sabotagens.

É nesse jogo que entra Rita, vivida com a habitual maestria por Letícia Colin. Agenciadora de garotas de programa, ela é escalada por Fernando para se aproximar de Maurício, desestabilizá-lo e conseguir informações que possam ser úteis na disputa. O problema — e também a graça — é que o plano deixa de ser apenas estratégico quando Rita se apaixona por Maurício.

O romance poderia ser apenas mais um elemento previsível de uma série sobre o submundo do futebol. Não é. “Jogada de Risco” consegue fazer com que Rita e Maurício tenham uma trajetória própria, ao mesmo tempo em que amplia o universo da trama e dá aos personagens coadjuvantes espaço suficiente para não parecerem meras alavancagens para os conflitos do protagonista.

Isso vale para o pai contraventor de Maurício, vivido por Marcos Frota, para a sócia da agência e, principalmente, para os jogadores que ele representa. São personagens que ajudam a construir um mundo que parece ter vida para além daquilo que está sendo mostrado em cena.

Talvez esteja aí o maior mérito de “Jogada de Risco”. A série sabe exatamente como navegar este universo. Não se limita à promessa fácil do futebol proibidão, nem depende de nudez e sexo para sustentar o interesse. Há uma trama bem amarrada, personagens com conflitos claros, humor, tensão, romance e uma compreensão bastante eficiente de que o futebol, como negócio, é tão fascinante quanto o futebol jogado dentro de campo.

O Globoplay ainda não confirmou uma segunda temporada, mas seria estranho imaginar que uma produção que encontrou esse nível de público e construiu tantos caminhos narrativos se encerrasse aqui.

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