Redação Culturize-se
Após uma temporada de sessões esgotadas no Rio de Janeiro, “O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado” chega a São Paulo para sua primeira temporada no Teatro Anchieta – Sesc Consolação, de 6 de agosto a 5 de setembro. Escrito e dirigido por Michel Melamed, o espetáculo também ganha edição em livro pela Editora Cobogó, que publica o texto integral da peça e disponibiliza a obra para venda após as apresentações.
Definida como uma comédia poética musical à capela, a montagem parte de uma situação aparentemente absurda para discutir questões bastante concretas do universo artístico: autoria, reconhecimento, dinheiro, mercado e sobrevivência. Em um fictício Setor de Registro e Produção de Obras Artísticas, ideias precisam ser submetidas à aprovação antes de poderem existir.
É nesse ambiente que uma funcionária incapaz de produzir uma criação própria passa a rejeitar sistematicamente os trabalhos apresentados por outras pessoas. O procedimento, porém, conduz a uma espécie de revelação: sua grande ideia surge justamente da colagem de tudo aquilo que recusou. Nasce, então, a chamada “Obra de Arte Total”.
A premissa permite a Melamed explorar, com humor e poesia, a tensão permanente entre liberdade criativa e estruturas de controle. “Um espetáculo sobre criatividade e dinheiro. A eterna batalha entre a livre criação e os donos da bola”, resume o diretor, que também define a montagem como “teatro experimental e comercial” e mais uma tentativa de criar alguma coisa. Para ele, a peça é ainda uma reflexão sobre o desejo de criar, inclusive quando ele se transforma em frustração, insônia e perda dos sonhos.

O elenco reúne Inez Viana, Simone Mazzer, Thalma de Freitas e Yasmin Gomlevsky, quatro atrizes de diferentes trajetórias que assumem personagens e, simultaneamente, funcionam como elementos da própria composição visual do espetáculo.
Essa dimensão ganha força no trabalho de figurino de Maika Mano e Penha Maia. Em diálogo com cenário e iluminação, as roupas não apenas caracterizam as personagens, mas assumem função dramatúrgica. Inspiradas pela Bauhaus e pelo construtivismo, as peças alteram proporções e aproximam os corpos de arquivos, objetos e estruturas burocráticas. As atrizes passam a ser, nas palavras de Melamed, “pinturas que ganharam volume, esculturas em movimento, cenografias portáteis”.
O resultado é uma encenação que transforma a própria burocracia em matéria de invenção. Ao colocar artistas diante de um sistema que tenta organizar, classificar e controlar a criação, “O Funcionário Que Pede Para Não Ser Identificado” encontra sua principal contradição: talvez a criatividade sobreviva justamente porque nunca se deixa inteiramente catalogar.