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"Boreout": o tédio crônico que também adoece o trabalhador

Redação Culturize-se

Enquanto o burnout — esgotamento causado por excesso de demandas — já é amplamente reconhecido, um fenômeno oposto começa a ganhar atenção de pesquisadores e organizações: o “boreout”, ou síndrome do tédio extremo no trabalho. Diferentemente do que muitos imaginam, ele não atinge profissionais sobrecarregados, mas justamente aqueles que enfrentam o oposto: falta de tarefas significativas, ausência de desafios e um profundo desengajamento ao longo do tempo.

O termo foi cunhado em 2007 pelos consultores suíços Philippe Rothlin e Peter Werder no livro “Diagnose Boreout”, que descreveu a condição não como simples preguiça, mas como uma resposta legítima a ambientes de trabalho desestimulantes. Desde então, o conceito passou a ser estudado com mais profundidade no campo da psicologia organizacional.

Uma das principais referências acadêmicas no tema é a pesquisadora alemã Ruth Stock-Homburg, que identifica três gatilhos centrais da síndrome: tédio crônico, crise de sentido e falta de oportunidades de desenvolvimento profissional. Já a pesquisadora Lotta Harju, da EM Lyon Business School, avançou a discussão ao demonstrar, em estudo publicado em 2022, que o tédio prolongado pode coexistir com a exaustão emocional, sobretudo em ambientes de trabalho repetitivos ou pouco estruturados. Uma sugestão de que boreout e burnout não são necessariamente extremos opostos e excludentes, mas condições que podem se manifestar simultaneamente.

Foto: Pixabay

Os números reforçam a urgência do debate. Segundo levantamento da consultoria global Gallup, sete em cada dez brasileiros estão desengajados no trabalho, um indicador que os especialistas associam diretamente ao avanço silencioso do boreout nas empresas. Na França, estudos recentes apontaram que mais de 40% dos profissionais relataram tédio crônico no ambiente profissional. No México, pesquisa da plataforma de empregos OCC Mundial revelou que 75% dos trabalhadores do país estão insatisfeitos com sua situação laboral.

Os sintomas vão além da simples apatia. O quadro pode evoluir para depressão, estresse, fadiga, insônia e até problemas físicos como dores de cabeça, tontura e maior suscetibilidade a infecções. No ambiente corporativo, o resultado costuma ser baixo engajamento, procrastinação e aumento da rotatividade.

Entre as causas mais recorrentes está a distribuição desigual de tarefas dentro das equipes: enquanto alguns profissionais acumulam funções, outros recebem atividades repetitivas e pouco desafiadoras. Some-se a isso a ausência de metas claras, de feedback constante e de reconhecimento. Todos fatores que fazem com que muitos trabalhadores percam a noção do impacto real de seu trabalho.

Para especialistas em gestão de pessoas, o caminho para conter o avanço do boreout passa por redesenhar funções de forma mais dinâmica, investir em capacitação contínua e criar canais efetivos de escuta dentro das organizações — reconhecendo que, tanto quanto o excesso, a falta de estímulo também pode adoecer.

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