Redação Culturize-se
O Calendário Pirelli 2027 marca uma das edições mais ambiciosas e culturalmente complexas de sua história ao celebrar a Índia por meio de uma colaboração artística inédita. O projeto une duas visões distintas: a estética ocidental do fotógrafo norueguês Sølve Sundsbø e a perspectiva profundamente enraizada da indiana Avani Rai, que assumiu o legado do pai, o lendário Raghu Rai, após sua morte. A proposta, concebida originalmente com Raghu, transforma-se em um diálogo visual entre passado e presente, tradição e modernidade, monumentos históricos e ruas pulsantes.
Sundsbø, conhecido por seu estilo altamente definido e pela forte presença da moda em seus retratos, concentrou sua produção em cenários majestosos do Rajastão. Entre eles, o Forte Jaigarh, em Jaipur, e a região de Ajabgarh, locais que reforçam a monumentalidade e a sofisticação estética buscada pelo fotógrafo. Ali, ele retratou personalidades influentes como Freida Pinto, Aditi Rao Hydari, Anoushka Shankar, Rupi Kaur, Lakshmi Menon, Padma Lakshmi e até a própria Avani Rai. O elenco, composto por figuras públicas de renome internacional, reforça a dimensão global do projeto e a intenção de criar imagens que dialogam com a moda, a cultura pop e a herança histórica indiana.

A abordagem de Avani Rai, porém, segue um caminho completamente diferente. Em vez de cenários grandiosos, ela levou o calendário para as ruas de Old Delhi, revisitando locais fotografados por seu pai ao longo de 30 a 50 anos de carreira. O projeto original previa o uso de imagens históricas de Raghu como pano de fundo em estúdio, mas Avani optou por deslocar a produção para o espaço público, criando uma sobreposição temporal entre o passado registrado por Raghu e a realidade atual da Índia. Sua missão, como ela mesma descreve, é “enquadrar” simultaneamente o legado do pai e a vida contemporânea.
Essa escolha transforma Old Delhi em um palco vivo, onde centenas de pessoas — mais de 200 ao todo — participam do calendário. Artesãos, dançarinos, artistas de rua, músicos, comerciantes e cidadãos comuns compõem um elenco que contrasta com o grupo seleto fotografado por Sundsbø. Entre eles está também Gurmeet Rai, mãe de Avani, reforçando o caráter íntimo e familiar da produção. O resultado é uma narrativa visual que busca capturar a “alma” da Índia, revelando mudanças sociais, urbanas e humanas que se acumularam ao longo das décadas.
O contraste entre as duas abordagens é central para o conceito do calendário. Enquanto Sundsbø trabalha com retratos definidos, luz controlada e figuras públicas, Avani mergulha na espontaneidade das ruas, na diversidade humana e na complexidade cotidiana. O Rajastão monumental dialoga com a Delhi caótica; a estética ocidental conversa com a perspectiva interna; o passado de Raghu Rai se sobrepõe ao presente capturado por sua filha.
A importância de Raghu Rai permeia todo o projeto. Considerado um “mestre indiano” e reverenciado por Sundsbø como um “deus da fotografia”, Raghu construiu um legado que moldou a forma como a Índia é vista e registrada. Sua visão enraizada, sua capacidade de captar a essência do país e sua vasta produção histórica são pilares que sustentam a edição de 2027. Mesmo após seu falecimento, sua presença é sentida em cada imagem, seja como referência estética, seja como memória afetiva.







O Calendário Pirelli 2027 é uma obra que articula identidades, temporalidades e linguagens visuais. Ao unir a monumentalidade dos fortes do Rajastão com a vitalidade das ruas de Old Delhi, o projeto constrói uma ponte entre mundos e revela a Índia como território de beleza, diversidade e complexidade. A dualidade entre Sundsbø e Avani — entre o olhar estrangeiro e o olhar interno — transforma o calendário em uma celebração profunda da cultura indiana e de sua capacidade de se reinventar sem perder suas raízes.