Redação Culturize-se
Poucos alimentos despertam debates tão apaixonados no Brasil quanto o biscoito. Ou bolacha, dependendo do CEP. A rivalidade linguística entre cariocas e paulistas tornou-se um fenômeno da cultura popular, alimentando memes nas redes sociais e discussões aparentemente intermináveis. Mas, longe da brincadeira, o termo “biscoito” é o adotado pela indústria alimentícia e pelas normas técnicas, enquanto “bolacha” permanece como denominação predominante em boa parte do estado de São Paulo e em outras regiões do Sul do país.
A controvérsia, entretanto, é apenas a porta de entrada para um universo gastronômico muito mais amplo. Presente em praticamente todas as culturas, o biscoito é um dos alimentos mais versáteis do mundo. Sua origem remonta à Antiguidade, quando massas eram assadas duas vezes — daí o francês biscuit, derivado do latim bis coctus, “cozido duas vezes” — para aumentar sua durabilidade durante viagens e expedições marítimas.
Ao longo dos séculos, cada país desenvolveu suas próprias versões. Na Itália surgiram os cantucci e amaretti; na Bélgica, os speculoos; na Escócia, os tradicionais shortbread; na França, os delicados sablés; na Inglaterra, os digestives; enquanto os Estados Unidos transformaram os cookies em um ícone da confeitaria contemporânea. Na América Latina, biscoitos amanteigados, rosquinhas e sequilhos ganharam receitas adaptadas aos ingredientes locais.
No Brasil, a diversidade também impressiona. Há os sequilhos de polvilho do interior mineiro, os biscoitos de goma encontrados nas estradas de Goiás, os folhados vendidos em padarias, os biscoitos amanteigados artesanais, os biscoitos de vento nordestinos, além da infinidade de versões industrializadas que ocupam corredores inteiros dos supermercados.

Essa variedade explica, em parte, a força econômica do setor. Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi), com base em levantamento da NielsenIQ, mostram que o segmento movimentou R$ 33,1 bilhões em 2024, com mais de 1,5 milhão de toneladas consumidas no país. Os cookies, biscoitos cobertos com chocolate e versões recheadas lideram o crescimento recente da categoria, impulsionados pela busca por indulgência e praticidade.
Segundo a Abimapi, o consumidor brasileiro procura produtos que conciliem conveniência e prazer. Essa demanda explica tanto o crescimento das embalagens individuais quanto o investimento da indústria em receitas premium e novos sabores.
Mas reduzir o biscoito aos produtos industrializados seria ignorar sua importância gastronômica. Nas padarias, ele representa uma tradição centenária. Folhados doces, palmieres, língua-de-gato, amanteigados, broinhas, biscoitos de nata e de queijo continuam sendo produzidos artesanalmente por padeiros que preservam receitas familiares. Para muitos profissionais da panificação, o biscoito funciona como uma espécie de cartão de visitas da casa: exige domínio técnico, precisão nas proporções de gordura, farinha e açúcar, além do controle rigoroso da textura.
Também na confeitaria contemporânea, chefs vêm resgatando receitas clássicas ao incorporar ingredientes brasileiros, como castanhas, cumaru, baru, rapadura, café, cacau amazônico e frutas desidratadas. O resultado são produtos que transitam entre a tradição e a alta gastronomia.

Na rotina do brasileiro, poucos alimentos são tão democráticos. O biscoito aparece no café da manhã ao lado do pão; acompanha o café da tarde; vira lanche escolar; entra na bolsa para matar a fome durante o expediente; transforma-se em sobremesa quando recheado com chocolate ou doce de leite; serve de base para cheesecakes e pavês; substitui torradas em tábuas de frios; e até ganha versões salgadas para harmonizar com queijos, patês e antepastos.
No universo infantil, permanece associado às memórias afetivas. Para os adultos, muitas vezes representa praticidade em uma rotina acelerada. Já para a gastronomia, ele demonstra como um alimento aparentemente simples consegue reunir técnica, tradição, inovação e identidade cultural.
Se é biscoito ou bolacha, talvez a resposta continue dividindo opiniões. Mas há um consenso difícil de contestar: poucas receitas atravessaram tantos séculos, fronteiras e hábitos alimentares com tanta facilidade quanto esse pequeno protagonista das mesas brasileiras.