Redação Culturize-se
O interesse dos brasileiros por notícias está encolhendo de forma consistente há uma década. Mas talvez o dado mais relevante não seja o tamanho da queda, e sim quem continua interessado em se informar. Os números mais recentes do Digital News Report sugerem que o desafio do jornalismo contemporâneo não está apenas em atrair audiência, mas em evitar que o consumo de notícias se transforme em um hábito restrito a grupos cada vez mais específicos da população.
Em 2016, 81% dos brasileiros afirmavam estar extremamente ou muito interessados em notícias. Em 2026, esse percentual caiu para 51%. A redução de 30 pontos percentuais em dez anos é significativa, mas o comportamento da curva chama ainda mais atenção. Até 2020, o interesse permanecia relativamente estável, oscilando pouco. A grande ruptura ocorreu entre 2020 e 2021, quando o índice despencou de 79% para 66%.

A pandemia parece ter funcionado como um ponto de inflexão. Durante aquele período, a população foi exposta a um volume sem precedentes de informações, alertas, estatísticas e debates públicos. O fenômeno pode ter produzido um efeito paradoxal: em vez de fortalecer o hábito de acompanhar notícias, contribuiu para o surgimento de uma fadiga informacional que persiste mesmo após o fim da emergência sanitária.
Outro aspecto pouco observado é que o desinteresse não cresce apenas entre aqueles que rejeitam notícias. A categoria intermediária, formada por pessoas que se dizem interessadas “de alguma forma”, ganhou espaço de maneira expressiva. Em 2026, ela representa 26% dos entrevistados. Isso sugere uma transformação mais sutil: muitos brasileiros não deixaram de se informar completamente, mas passaram a fazê-lo de maneira ocasional, seletiva ou dependente dos conteúdos que chegam até eles por redes sociais e aplicativos.
A segmentação dos dados mostra que a informação está se tornando um produto consumido de maneira desigual. Entre jovens de 18 a 24 anos, apenas 32% demonstram forte interesse por notícias. Entre pessoas com mais de 55 anos, o índice sobe para 63%. A escolaridade também exerce forte influência: enquanto 67% dos entrevistados com maior nível educacional mantêm alto interesse, entre aqueles sem diploma o percentual cai para 46%.

O resultado é a formação de um público cada vez mais concentrado. O perfil dos mais interessados reúne características semelhantes: maior escolaridade, idade acima dos 35 anos e maior engajamento político. Em outras palavras, justamente os grupos que tradicionalmente já mantinham contato mais frequente com o noticiário.
Para o setor jornalístico, o alerta não está apenas na redução do interesse geral. O dado mais desafiador é perceber que as notícias parecem estar perdendo relevância justamente entre públicos que definirão o futuro do consumo de informação. O problema, portanto, não é apenas quantitativo. É também uma questão de representatividade, linguagem e capacidade de conexão com uma sociedade cada vez mais fragmentada.