Redação Culturize-se
Um estudo baseado em análise matemática de mais de 20 mil obras musicais sugere que a música ocidental vem se tornando estruturalmente mais simples ao longo dos últimos séculos, com um pico de complexidade por volta da década de 1960 e uma trajetória de queda desde então. A pesquisa, conduzida por cientistas de dados italianos liderados por Niccolò DiMarco, da Universidade da Tuscia, foi publicada na revista Scientific Reports e reacende um debate antigo entre músicos, teóricos e ouvintes sobre a sofisticação da música contemporânea.
A investigação parte de uma premissa frequentemente levantada no meio musical: a percepção de que composições modernas estariam mais simples em melodia e harmonia do que obras do passado. Para testar essa hipótese, os pesquisadores analisaram um vasto conjunto de peças entre os séculos XVII e XXI, convertidas para arquivos MIDI, que registram digitalmente cada nota tocada.
Em vez de avaliar a música por critérios tradicionais de teoria musical, o grupo adotou uma abordagem baseada em redes. Cada nota foi tratada como um ponto conectado a outras por intervalos de frequência, criando uma espécie de mapa matemático da estrutura musical. A partir disso, foram calculadas métricas como “eficiência”, que mede o grau de conexão entre notas e o nível de previsibilidade da composição.
Segundo DiMarco, essa métrica permite estimar o quanto uma peça explora possibilidades sonoras ou, ao contrário, se baseia em padrões repetitivos. O resultado geral indicou uma redução gradual da complexidade ao longo do tempo, inclusive em gêneros tradicionalmente considerados sofisticados, como música clássica e jazz.
O estudo aponta que o auge dessa complexidade teria ocorrido nos anos 1960, seguido por uma convergência estilística entre diferentes gêneros. De acordo com os autores, mesmo estilos historicamente distintos passaram a apresentar estruturas mais semelhantes, reduzindo a diversidade interna da música ocidental.
A conclusão, no entanto, não atribui a simplificação a gêneros específicos como pop, hip-hop ou música eletrônica. Trata-se, segundo o estudo, de um fenômeno mais amplo, que atravessa toda a indústria musical e não se limita às formas mais comerciais de produção.
Apesar disso, o trabalho reconhece limitações importantes. A análise não contempla elementos como ritmo, timbre ou produção sonora — aspectos fundamentais da experiência musical que não são capturados por arquivos MIDI. Além disso, apenas obras com metadados disponíveis em plataformas como o Spotify foram incluídas, o que restringe o recorte a produções com algum nível de circulação comercial.

Especialistas apontam outras restrições. Para o pesquisador Hugo Carvalho, da UFRJ, a classificação da música ocidental em poucos “macro-gêneros” simplifica excessivamente um universo extremamente diverso, deixando de fora tradições inteiras, como a música latino-americana e a MPB. Além disso, ao O Globo, ele questiona a redução da complexidade a um único parâmetro baseado em transições entre notas.
O estudo também sugere que fatores econômicos e culturais ajudam a explicar essa tendência. Em um mercado dominado por plataformas de streaming e consumo rápido, artistas podem ser incentivados a produzir músicas mais diretas, capazes de alcançar grandes públicos em curto prazo.
DiMarco, no entanto, rejeita qualquer interpretação qualitativa de sua pesquisa. Para ele, a métrica não define o valor artístico das obras, mas apenas descreve padrões estruturais. Ainda assim, reconhece que a paisagem musical contemporânea é mais orientada pela lógica de alcance e viralização do que pela experimentação formal.
No fim, o estudo não encerra a discussão, mas a reposiciona em novos termos: a música talvez não esteja ficando menos sofisticada em essência, mas sim sendo organizada e consumida de forma que privilegia a simplicidade.