Por Reinado Glioche
Pedro Almodóvar não é estranho à autoficção. O fez lindamente em “Dor e Glória”. Não é, também, incauto nas discussões sobre a arte e, mais especificamente, sobre a arte de filmar. Algo perene em sua filmografia e abordado mais especificamente, novamente, em “Dor e Glória”.
Seu novo filme” Natal Amargo”, em cartaz nos cinemas brasileiros, recupera esses dois pilares de sua obra para viabilizar uma inflexão sobre as circunstâncias da criação artística e até que ponto certa ambiguidade moral deve ser tolerada. Essa proposição se dá no atravessamento do luto, outro componente fabril do cinema almodovariano. Aqui o luto se afigura tanto pela morte como pelo fim de uma relação amorosa.
“Natal Amargo” é um filme fragmentado e de fragmentos. Organizado por metalinguagens, é daquela linha “filme dentro de um filme” e em ambos os casos os cineastas, espelhos de Almodóvar e suas obsessões, estão criando e sendo confrontados pela extensão de suas criações.
Não é um filme de conclusões, tampouco de convenções. Almodóvar parece contentar-se na angústia, na elaboração de problemas e no compartilhamento destes com sua audiência. Com seus personagens. Talvez seja um sintoma de um cineasta que não consegue ficar sem filmar, que se agonia e agoniza no hiato entre suas obras e que enxerga na ficção a necessidade de psicologizar a realidade.
Não se trata de um Almodóvar amargo, mas de um cineasta ainda pulsante e que busca algum grau de justificação para seus impulsos pela lente de seus personagens. Afinal, advoga um deles, chega um momento que resta ao escritor aceitar as imposições que lhe são feitas por suas criações.
