Redação Culturize-se
A edição 2026 da CASACOR São Paulo se estrutura como uma resposta direta ao ritmo acelerado das cidades contemporâneas e à saturação informacional que atravessa a vida cotidiana. Instalada novamente no Parque da Água Branca, a mostra propõe uma experiência que desloca a arquitetura do campo estritamente funcional para o território do sensível, articulando natureza, bem-estar e convivência sob o tema “Mente e Coração”.
Mais do que uma exposição de interiores, a CASACOR reafirma seu papel como plataforma cultural e instrumento de intervenção urbana. Ao ocupar um espaço público tombado, o evento opera dentro de uma lógica de requalificação temporária, ativando edifícios históricos e áreas pouco acessadas da cidade. Em 2026, são 70 ambientes distribuídos em mais de 10 mil m², com cerca de 40% da área aberta ao público, reforçando a intenção de integração entre mostra e cotidiano do parque.

O percurso é concebido como uma sequência de desaceleração. Logo na entrada, a fachada de muxarabis funciona como membrana entre o exterior urbano e o interior da experiência expositiva. A filtragem de luz, as sombras projetadas e a transparência controlada criam uma transição gradual, quase ritualística. Esse gesto inicial sintetiza o espírito da edição: não se trata de impor um espetáculo, mas de conduzir o visitante a um estado de percepção mais atento.
A relação com o território se aprofunda nos projetos paisagísticos. Um dos primeiros jardins apresenta uma curadoria botânica voltada a espécies brasileiras e princípios do paisagismo naturalista contemporâneo, evitando intervenções invasivas no solo e preservando a dinâmica original do terreno. Outro eixo importante é a valorização da Mata Atlântica como referência de bioma, reforçando a ideia de paisagismo como escuta do lugar. A criação de hotéis de insetos e a preservação de polinizadores inserem a dimensão ecológica no centro da experiência arquitetônica.
A edição também estabelece protocolos ambientais rigorosos. A CASACOR mantém o compromisso de operação “lixo zero”, com desvio integral de resíduos de aterros sanitários e reinserção na cadeia produtiva. O paisagismo, por sua vez, evita o plantio direto no solo do parque, utilizando vasos e estruturas removíveis. A iluminação externa, em tons quentes e de baixa interferência, é pensada para reduzir impactos sobre a fauna noturna, reforçando a ideia de convivência entre ocupação humana e ciclos naturais.
No conjunto de ambientes internos, a diversidade de linguagens arquitetônicas traduz a amplitude do tema “Mente e Coração”. A cozinha assinada por Beatriz Quinelato em parceria com a marca Brastemp exemplifica a fusão entre tecnologia e permanência. Com 72 m², o espaço é concebido como cozinha viva, voltada a encontros e experimentações, onde materiais como mármore verde e terrazzo dialogam com uma paleta cromática que articula natureza e marca.
Já o espaço “Living Origens”, do Atelier Navarro Arquitetura, assume um tom mais crítico. O projeto tensiona o consumo de objetos e significados no habitar contemporâneo, mobilizando referências teóricas como Jean Baudrillard e Zygmunt Bauman para discutir a arquitetura como sistema simbólico. A curadoria de obras de arte e o uso de peças icônicas do design brasileiro constroem um ambiente que opera simultaneamente como sala de estar e ensaio conceitual sobre desejo, valor e representação.
No CASACOR São Paulo 2026, essa multiplicidade de abordagens não se apresenta como fragmentação, mas como método. A mostra articula experiências que vão do acolhimento sensorial à reflexão crítica, passando por espaços de convivência, áreas de debate e instalações artísticas. No Prédio 22, por exemplo, uma arena de conhecimento desenvolvida em parceria com o Senac São Paulo amplia o papel educativo do evento, ao reunir discussões sobre inovação, sustentabilidade e tecnologia.




A presença de jardins integrados, tiny houses, galerias e espaços comerciais reforça a ideia de que a arquitetura contemporânea se expande para além do edifício, incorporando modos de vida, trabalho e sociabilidade. Entre casas experimentais, estúdios e instalações, a mostra constrói uma narrativa em que o habitar não é apenas função, mas também escolha estética, ética e política.
Ao final do percurso, o que se delineia é um campo de investigação sobre como viver em um mundo saturado de estímulos. Ao propor pausas, filtros e reconfigurações do espaço, a CASACOR São Paulo 2026 transforma o Parque da Água Branca em laboratório sensível da vida contemporânea; onde arquitetura, natureza e cultura não apenas coexistem, mas se interrogam mutuamente.