Por Reinaldo Glioche
Vinte anos depois do original, “O Diabo Veste Prada 2” chega aos cinemas envolto em um tipo peculiar de expectativa: a de uma sequência tardia que não parecia necessária, mas que rapidamente encontra justificativas consistentes para existir. Se, à primeira vista, seu êxito pode ser medido em números — a produção ultrapassou, em poucos dias, a bilheteria total do longa de 2006 —, sua relevância mais duradoura reside na maneira como articula transformações culturais profundas com uma engrenagem industrial altamente sofisticada.
O retorno de Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci, sob direção de David Frankel, evita o risco mais comum das continuações de sobreviver apenas como extensão simbólica de uma obra consolidada. Em vez disso, o filme reposiciona seus personagens em um mundo atravessado por plataformas digitais, inteligência artificial e uma lógica de trabalho permanentemente instável. Se o primeiro longa capturava os excessos corporativos dos anos 2000, a nova versão se volta para um mal-estar mais difuso — menos espetacular, mas mais estrutural.
A moda permanece como cenário, mas o centro narrativo se desloca para o jornalismo e para o esvaziamento de suas estruturas tradicionais. A revista Runway, outrora símbolo de poder editorial, agora opera sob pressões que vão da dependência publicitária à diluição de identidade em meio à lógica dos algoritmos. O filme encontra, nesse terreno, um espaço fértil para observações ácidas sobre o presente: a ascensão do “quiet luxury”, a submissão editorial às métricas de engajamento e a progressiva fusão entre conteúdo e publicidade.
Nesse contexto, Andy Sachs retorna mais complexa. A personagem de Hathaway, agora jornalista em busca de relevância real, protagoniza uma das sequências mais emblemáticas do filme ao ser demitida na mesma noite em que recebe um prêmio. O paradoxo sintetiza o espírito da narrativa: reconhecimento já não garante estabilidade. O mercado, reorganizado por critérios opacos, torna o mérito quase irrelevante.

O reencontro com Miranda Priestly, por sua vez, é menos explosivo do que revelador. A personagem de Streep continua opulenta, mas já não ocupa o mesmo lugar de poder absoluto. Sua transformação acompanha tanto a decadência das estruturas editoriais quanto a própria reinterpretação cultural da personagem, que deixou de ser apenas uma caricatura da crueldade corporativa para se tornar símbolo de uma ética produtivista que ainda persiste, mas já não domina sozinha.
Essa tensão se amplia com a presença de Emily (Emily Blunt), agora executiva ligada à Dior, cuja influência sobre a Runway explicita o embaralhamento entre jornalismo e marketing. O filme compreende que, no presente, essa relação deixou de ser apenas desconfortável para se tornar estrutural.
Curiosamente, esse comentário interno sobre a captura do editorial pelo marketing encontra eco fora da tela. A própria existência de “O Diabo Veste Prada 2” como fenômeno global está diretamente ligada a uma campanha que redefine o padrão da indústria. Diante da ausência de um blockbuster da Marvel para abrir o verão, o executivo Alan Bergman da 20th Century apostou na inversão de lógica: transformar um drama centrado em personagens femininas no principal lançamento da temporada.
A decisão foi sustentada por uma estratégia agressiva. A campanha acumulou parcerias avaliadas em US$ 250 milhões — a maior da história do estúdio. Marcas como Google, Coca-Cola, Mercedes-Benz, L’Oréal Paris e Lancôme transformaram o filme em plataforma de ativação global.
Mais do que product placement, o que se vê é uma integração total entre narrativa e mercado — uma estratégia que, ironicamente, espelha as críticas feitas pelo próprio filme. Campanhas com nomes como Kendall Jenner e Simone Ashley ajudaram a atrair o público jovem, enquanto a presença do elenco em eventos como o Met Gala e uma turnê global consolidaram o longa como evento cultural.
Os resultados foram imediatos. Com mais de US$ 400 milhões arrecadados em menos de duas semanas, o filme se tornou o maior sucesso protagonizado por mulheres desde “Barbie”. Mais revelador, porém, é o perfil do público: uma combinação entre millennials e geração Z, indicando que o filme conseguiu transcender a base nostálgica.




Ainda assim, “O Diabo Veste Prada 2” funciona melhor quando se afasta de sua dimensão industrial e retorna ao drama íntimo. É nesse registro que Stanley Tucci se destaca, oferecendo uma atuação contida que adiciona densidade emocional à narrativa. Seu personagem, Nigel, mais do que qualquer outro, parece compreender as regras do sistema e suas inevitáveis contradições.
No fim, o filme se sustenta justamente por recusar a nostalgia como motor único. Ao revisitar seus personagens em um mundo transformado — onde carreiras são voláteis e identidades são mediadas por métricas —, a sequência não apenas atualiza o original, mas o ressignifica. E, ao fazê-lo, expõe uma ironia inevitável: ao mesmo tempo em que critica a fusão entre conteúdo e mercado, torna-se um dos exemplos mais bem-sucedidos dessa própria lógica.